«Quase fizeste dele um ser divino» (Sl 8, 6)

«Quase fizeste dele um ser divino» (Sl 8, 6)

«E o que se poderia dizer e pensar de maior sobre o homem a não ser que o próprio Deus se fez homem?» (homilia de 29/09/2007) Esta bela expressão do Papa Bento XVI vai ao encontro à ideia conciliar (GS 22) de que Jesus Cristo é chave de interpretação do homem e do mundo. Se o homem apresenta uma dupla vocação (GS 3) – a vocação ao sobrenatural e a à fraternidade universal – em Jesus Cristo encontra luz para responder aos anseios profundos da sua natureza. «Quem segue a Cristo, o homem perfeito, faz-se ele mesmo mais homem» (GS 41).

Na teologia cristológica moderna, encontramos nitidamente a conceção da redenção como um ato de humanização mais do que um ato «deificante». O homem que se assemelha a Cristo não se transforma em Deus, mas, pelo contrário, torna-se cada vez mais humano. Nesta teoria, fundamenta-se a relação entre a cristologia e a antropologia e funde-se a realidade que une Deus ao homem. [continuar a ler]

A Longa Viagem Interior

A Longa Viagem Interior

No século V a.C., Sócrates pedia aos seus discípulos aquilo que estava esculpido no frontão do templo de Apolo em Delfos: «Homem, conhece-te a ti mesmo». O conhecimento de si é indispensável para percorrer o itinerário da vida interior e humana. É verdade que tal conhecimento nunca é pleno: cada um continua a ser um mistério inclusive para si mesmo e por vezes pode parecer até um enigma com sombras e lados obscuros que não quereria ver e que talvez estigmatize nos outros.

Todavia, é absolutamente necessário conhecer-se a si mesmo, para saber aquilo de que se é capaz, quais são os seus limites e as suas forças, para se ser responsável por si e pelos outros, segundo as impressionantes palavras de Dostoiévski: «Cada um de nós é responsável por tudo e por todos diante de todos, e eu sou mais responsável do que os outros». Trata-se de se conhecer a si próprio como processo de leitura psicológica de si; de conhecer-se para ter de si um juízo justo; de conhecer-se na pertença a uma porção precisa de humanidade. [continuar a ler]

O homem está no meio de duas grandes infinitudes

O homem está no meio de duas grandes infinitudes

O homem está no meio de duas grandes infinitudes: o infinitamente grande e o infinitamente pequeno; entre o anjo e a besta… a mediocridade é a retidão natural do homem, que vive (igualmente) num paradoxo, já que é a sua miséria que o exalta.

Como afirmava Pascal, o homem é uma “cana pensante” – esta metáfora expressa a figura do humano que, mesmo capacitado de racionalidade, quebra com uma forte ventania.  Perante um plano universal, o homem é praticamente nada; contudo é nesse “nada” que é “tudo”: isto porque pela razão reconhece-se como existente, algo naturalmente impossível num vegetal ou num animal; é esta a trágica realidade de Pascal. [continuar a ler]

“Às três horas da tarde” Lc 23, 44

“Às três horas da tarde” Lc 23, 44

Chegámos a mais uma Quaresma. Não a mais uma, mas sim à nossa Quaresma. A Quaresma é, por excelência, um tempo de penitência, de oração e de jejum, resumidamente, um tempo de conversão. E como já é norma do Seminário, os seminaristas vão em retiro no início deste tempo. Este ano não foi exceção. Claro que se teve que moldar o retiro às circunstâncias atuais que esta pandemia nos trouxe. Por isso, os seminaristas mais novos foram em retiro, separados dos mais velhos, para a Paróquia das Fontinhas, para realizarem lá os seus exercícios, no Centro Paroquial e Social das Fontinhas. O que consta aqui de relevante, e o que me leva a escrever este acontecimento, passou-se durante este retiro. [continuar a ler]

Contracorrente

Contracorrente

“Portanto, ainda que, na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade, e a todos coube a mesma fé pela justiça de Deus.”

Lumen Gentium 32

Esta declaração solene do Concílio Vaticano II é o reflexo do que é o ensino da Igreja a respeito da santidade desde os primórdios; exemplo disso é o calendário litúrgico dos últimos dias. Nesta última semana, fizemos memória de diversas figuras, modelos de autêntica vivência do Evangelho, nos mais diversos quadrantes da vida no mundo, da diversidade de ministérios a que todos os batizados são chamados e das mais diferentes latitudes onde estes homens e mulheres deram o seu testemunho. [continuar a ler]

Ecclesia semper reformanda

Ecclesia semper reformanda

Sem crítica, a Igreja instala-se, acomoda-se. Perde o sentido do seu peregrinar pelos tempos e gerações e lugares. Aí duma Igreja instalada, sem vida, sem procura, segura, contente…. É necessário todos os dias arrepender-se, converter-se. Com coragem. Com humildade. É necessário ser humilde e corajoso para criticar a Igreja.

         Criticar a Igreja é criticar a Mãe, é criticarmos a nós próprios.

         Igreja, Minha Mãe! Eu Creio.

(Pe. António Rogério Gomes, O Dever, 4/3/1988)

Foi em 1988, que o ilustre padre António Rogério Gomes escreveu este parágrafo num artigo de jornal, e, sendo tão atual, tão urgente e tão necessário, deveria ser um texto sabido de cor, de coração, pela Igreja e por cada cristão que a compõe. [continuar a ler]