Sem crítica, a Igreja instala-se, acomoda-se. Perde o sentido do seu peregrinar pelos tempos e gerações e lugares. Aí duma Igreja instalada, sem vida, sem procura, segura, contente…. É necessário todos os dias arrepender-se, converter-se. Com coragem. Com humildade. É necessário ser humilde e corajoso para criticar a Igreja.

         Criticar a Igreja é criticar a Mãe, é criticarmos a nós próprios.

         Igreja, Minha Mãe! Eu Creio.

(Pe. António Rogério Gomes, O Dever, 4/3/1988)

Foi em 1988, que o ilustre padre António Rogério Gomes escreveu este parágrafo num artigo de jornal, e, sendo tão atual, tão urgente e tão necessário, deveria ser um texto sabido de cor, de coração, pela Igreja e por cada cristão que a compõe.

Sobretudo nestes anos, em que muitos dizem que a Igreja de Angra está em “caminhada sinodal”, talvez fosse proveitoso ler e meditar este parágrafo, em Igreja, para, a partir dele, estabelecer um debate simples e concreto, entre os seus participantes, sejam eles ou agentes de pastoral, ou crentes ou não crentes, ou até mesmo indiferentes… para que as reuniões “sinodais” não se tornem em reuniões de um clube de leitura, onde simplesmente se leem observações e se responde a várias questões. Seria de esperar que da análise, debate e diálogo nascesse uma reflexão viva e consciente, onde seja espelhada, com veracidade e autenticidade, a realidade açoriana, a realidade da Igreja diocesana e do seu clero, para uma profunda renovação, neste arquipélago.

Esta análise requer, sobretudo pela parte dos fiéis (leigos e clérigos) açorianos, uma luta feroz e decidida contra um novo fenómeno que está a surgir na nossa sociedade, e que está a invadir a Igreja: há um medo coletivo de declarar que estamos a falhar, até temos receio das críticas internas; sabemos quais são os nossos problemas, mas temos receio das mudanças, ou pior, não queremos mudar ou que mude… porque nos rouba a zona de conforto.

E para ajudar a esta reflexão, gostaria de contar uma história real. Quando o Papa Francisco começou o seu pontificado, a palavra de ordem era mudança. No mesmo instante, levados por uma corrente ideológica militante alheia ao próprio papa, surgiu uns fanáticos a percorrer a diocese e o mundo, numa caça aos “antipapistas” e “lefebvrianos” (Gente cognominada assim, que criticamente, nos vários sentidos da palavra, avaliaram o papa e as suas ideias).

Porém, desde então, Francisco está de “vassoura na mão”, numa tentativa de reforma profunda, e a sua popularidade tem decrescido. Muitos pensavam que Francisco ia oferecer laxismo à Igreja, e afinal de contas, anda a puxar as orelhas a muitos. E aqui constatamos algo inesperado: os “antipapistas” simpatizam com o papa; e os fanáticos por Francisco, já nem falam dele, aliás, até já o começam a odiar, pois sentem que o papa anda a tocar em temas que lhes causam incómodo…

“Moral da história” (como fazia Esopo, nas suas clássicas fábulas): todos querem mudança, mas ninguém quer mudar a si mesmo. E bem dizia o Papa Francisco, uns anos atrás: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, do que uma Igreja enferma pela oclusão e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças” (EG 49).

Para termos uma Igreja convertida, a sério, há que começar pela nossa própria conversão pessoal. Há que olhar com seriedade. Santo Ambrósio designava a Igreja como a Casta Meretrix, ou seja, uma prostituta casta…

É verdade que a Igreja é Casta, é santa, porque a Sua Cabeça, Cristo, é santo e diviniza a própria Igreja. Também é verdade que a Igreja é Meretrix, pois o seu corpo é formado pelos cristãos, que por sua vez têm os seus pecados, e os pecados dos cristãos são os pecados da Igreja. Contudo, nunca nos esqueçamos que também temos responsabilidades na Igreja e pela Igreja. Temos a função de evidenciar sempre mais a Santidade da Igreja e do seu Fundador, Jesus Cristo, do que o seu pecado provindo de nós mesmos, homens e mulheres cristãos em amadurecimento e a caminhar para a santidade.

Que a “caminhada sinodal” da Igreja de Angra se recorde deste prisma.

“Igreja, minha mãe! Eu creio”.

Diác. António Santos

6º Ano