Seminário de Angra duplica número de alunos no Porto e reforça esperança vocacional

Encontro entre seminaristas e candidatos ao ano propedêutico termina este domingo no Nordeste, em São Miguel

Foto: Elson Medeiros

O Seminário Episcopal de Angra vai aumentar o número de seminaristas em formação no Porto no próximo ano letivo- aos três que já estão deverão juntar-se mais quatro, que iniciarão o ano propedêutico no dia 28 de setembro- , um crescimento que o reitor, padre Emanuel Valadão Vaz, considera ser fruto de um caminho de oração, acompanhamento vocacional e maior proximidade dos párocos à questão vocacional dos jovens.

“Este ano o Seminário pode mais do que  duplicar o número de alunos no Porto. Isto tem a ver com a oração, sem dúvida, mas também com um pré-seminário mais ativo e, sobretudo, com a atenção dos párocos, que souberam acompanhar estes jovens e ajudá-los a dar este passo”, afirmou o reitor ao lembrar o caso de um jovem do Pico que está a fazer o seu discernimento mas que “ainda não está pronto” e a voz do pároco “foi fundamental”, revela.

Durante este fim de semana a comunidade de seminaristas e de candidatos ao Seminário esteve reunida em encontro, na Achadinha, concelho do Nordeste, num momento de convivência, partilha e discernimento, acompanhados também do sacerdote que serve esta unidade pastoral da Achada, Achadinha e Santana, padre Jorge Sousa.

Segundo o padre Emanuel Valadão Vaz, o encontro nasceu por iniciativa dos próprios seminaristas e procurou fortalecer o espírito de comunidade entre quem já está em formação e aqueles que agora iniciam o processo de discernimento.

“Foi uma oportunidade para criar espírito de comunidade, acolher os novos candidatos e ajudá-los a perceber que o Seminário é, antes de mais, um caminho de discernimento e de crescimento humano e espiritual”, sublinhou.

Foto: Elson Medeiros

“Estarmos numa comunidade assim de periferia, ajuda-nos a compreender um bocadinho aquilo que é esta vida do nosso povo” sublinhou, recordando que nem todos estão na mesma fase e há “ainda muito discernimento a fazer”.

“As preocupações de quem chega de novo são sempre muitas e variadas. São preocupações de ordem familiar, do desconhecido, do medo desta não ser a verdadeira vocação e nesses casos, nós temos de desfazer equívocos, dizendo que quem entra no Seminário não tem que ser necessariamente padre”, lembra o presbítero.

“O que é importante é que eles compreendam que esta possibilidade que é dada, de ter um acompanhamento e fazer um discernimento, é essencialmente para poderem perceber um bocadinho aquilo que é esta interpelação, aquilo a que são chamados. Se sentem uma atração por Jesus Cristo devem aprofundar esse caminho”, disse.

Este encontro, que decorre no fim de semana na Achadinha, foi agendado por iniciativa dos próprios alunos do Seminário, que estão no Porto, a que se juntaram os candidatos deste ano. Inclusivé, até esteve em cima da mesa que o encontro fosse mais alargado a todos os jovens que estão a frequentar as ações do pré- Seminário, o que não foi possível ainda este ano.

“A presença dos párocos continua a ser essencial”, e “quanto mais se envolvem e estão despertos maior é a vantagem para a Pastoral”, referiu ainda o padre Emanuel Valadão Vaz para quem a Pastoral Vocacional tem de ser trabalhada de uma forma mais “próxima, atenta e efetiva”.

Foto: Elson Medeiros

Entre os atuais seminaristas, Afonso Silveira, natural de São Roque, e Elson Medeiros, das Sete Cidades, concluíram a licenciatura em Teologia, na Universidade Católica Portuguesa do Porto e iniciam agora o último ano do mestrado.

Após concluírem esta etapa académica, regressarão aos Açores dentro de cerca de ano e meio para realizar o ano pastoral e o estágio, etapas finais antes da ordenação sacerdotal.

Durante este último ano de estudos, ambos terão uma integração mais intensa na pastoral da Diocese do Porto, conciliando a elaboração da dissertação de mestrado com o acompanhamento de comunidades e outras experiências pastorais.

“Gostaríamos de ter uma maior integração na própria realidade pastoral. Estou muito animado com aquilo que aí vem e peço apenas que Deus me ajude”, afirmou Afonso Silveira.

Também Elson Medeiros considera que esta nova etapa permitirá aprofundar a preparação para o ministério.

“A parte teórica está praticamente concluída. Ao longo do ano vamos conhecer melhor os vários movimentos da Diocese do Porto e preparar-nos pastoralmente”, explicou, mostrando satisfação pelo reforço do número de seminaristas açorianos.

“É sinal de que Deus continua a guiar a Diocese de Angra e de que há muitas pessoas a rezar por nós.”

David Carreiro prossegue formação

Depois de concluir o primeiro ano de Teologia, David Carreiro, da Covoada, prepara-se para ingressar no segundo ano, fazendo um balanço positivo da experiência académica, comunitária e pastoral.

“O balanço é positivo. Muitas vezes criamos fantasmas quanto à exigência académica, mas com esforço, apoio dos colegas e confiança no Senhor conseguimos ultrapassar as dificuldades”, afirmou revelando que tudo “se torna mais fácil”.

O seminarista destacou ainda a importância do encontro realizado na Achadinha, este fim-de-semana, para fortalecer a identidade diocesana dos atuais e futuros seminaristas.

Dos tr~es que estão no Porto, David Carreiro foi o único que nunca estudou fisicamente no Seminário de Angra, embora tenha feito um ano de discernimento, feito a partir de casa, mas já acompanhado pela equipa formadora do Seminário Episcopal de Angra, a onde se deslocava pontualmente para participar em atividades.

Quatro novos candidatos podem iniciar caminho

O próximo ano letivo marcará também a entrada de quatro novos candidatos no ano propedêutico, que se deslocarão até ao Porto: André Rodrigues, dos Biscoitos (Terceira), Tomás Correia, das Capelas (São Miguel); um jovem de São Vicente Ferreira, também em São Miguel, que ainda está em fase de discernimento sobre a ida para o Porto e Jefferson Pontes, missionário brasileiro radicado nos Açores, que já serviu as paróquias de Ponta Graça e Rabo de Peixe, integrando as comunidades da Obra de Maria.

Todos destacaram que chegam ao Seminário conscientes de que este primeiro ano é sobretudo um tempo de discernimento, procurando descobrir a vontade de Deus para as suas vidas.

Jefferson Pontes, 37 anos, natural do interior de Pernambuco, Brasil, é um dos candidatos que vai iniciar o ano propedêutico no Seminário do Porto. Missionário da Obra de Maria e residente durante vários anos nos Açores, diz que o chamamento ao sacerdócio foi amadurecendo ao longo do tempo.

“Inicialmente pensava que a minha vocação passava apenas por ser missionário, como sou na Obra de Maria. No entanto, fui percebendo que Deus me chamava a algo mais. Esse sentimento foi crescendo até dar o passo de falar com os padres e iniciar um caminho de discernimento” confessou ao Sítio Igreja Açores.

“Fui percebendo a necessidade que existe na diocese e fui criando uma ligação muito forte a este povo. Gosto de viver aqui e sinto que Deus me chama a servir esta Igreja em concreto. Pela idade, pela experiência de vida e pelo percurso que fiz, sinto que este é o lugar onde posso dedicar-me mais plenamente ao serviço das pessoas, se Deus assim o quiser” referiu ainda.

“Procuro não criar demasiadas expectativas para não alimentar ansiedades ou futuras desilusões. Quero ir de coração aberto para acolher tudo o que vou viver” disse ainda.

“Na verdade, vivo longe da minha família desde os 14 anos, quando saí de casa para estudar noutra cidade. Por isso, a distância nunca foi novidade para eles. O que foi novo foi perceberem que este caminho poderia conduzir ao sacerdócio”, concluí.

André Rodrigues, é natural da ilha Terceira, da paróquia dos Biscoitos e tem 18 anos. Está decidido a ir para o Porto e iniciar um longo e novo caminho de discernimento.

“Pensei em entrar para a Universidade mas, verdadeiramente, senti que não era isso que queria” refere, mesmo reconhecendo que a profissão de engenheiro não seria descartável.

“Estava para ir para a universidade, para a Universidade do Porto, para a área da engenharia, provavelmente a engenharia do ambiente, que é o que eu gosto” disse André Rodrigues de forma peremptória, mas o desejo de aprofundar e “discernir o que o Senhor quer de mim, falou mais forte”.

Tomás Correia , das Capelas, tem 17 anos. Durante muito tempo tem procurado não dramatizar muito o que o espera. Aliás, nunca forçou nada.

“De vez em quando sentia que poderia optar por este caminho, mas nunca valorizei particularmente”, disse.

“Agora, no início deste ano, a ideia surgiu uma outra vez, e em vez de descartar, tentava por a questão como possibilidade. Comecei a investigar mais a fundo sobre a Igreja, rezava mais, ia mais vezes à missa, tentava participar melhor nas coisas da Igreja e na comunidade, e comecei a olhar para esta opção” avança.

No principio os pais não foram os maiores entusiastas mas já se renderam à vontade do filho e Tomas Correia tem a opção tomada.

“Sim,  vou tentar, para perceber se é isto que Deus quer para mim, vou experimentar e tentar perceber realmente o que é que eu vou fazer” acrescentou.

Os jovens seminaristas iniciam a partir de segunda feira o seu período de férias e em setembro estão de regresso ao Porto, uns para prosseguirem o ciclo de estudos; outros para se ambientarem a casa nova.

Este será o terceiro ano letivo em que os jovens seminaristas dos Açores frequentarão o Seminário Episcopal do Porto e a Universidade Católica Portuguesa.

Para o reitor tem sido “exigente” mas “todos temos ganho” reconhecendo que esta opção tem sido vantajosa para os seminaristas que contactam com outras realidades e para a própria diocese, que lhes dá ferramentas para crescerem na fé e na dimensão humana.

A opção de enviar os alunos do Seminário Episcopal de Angra para o porto foi tomada no Conselho Presbibetral de 2024.

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