O homem está no meio de duas grandes infinitudes: o infinitamente grande e o infinitamente pequeno; entre o anjo e a besta… a mediocridade é a retidão natural do homem, que vive (igualmente) num paradoxo, já que é a sua miséria que o exalta.

Como afirmava Pascal, o homem é uma “cana pensante” – esta metáfora expressa a figura do humano que, mesmo capacitado de racionalidade, quebra com uma forte ventania.  Perante um plano universal, o homem é praticamente nada; contudo é nesse “nada” que é “tudo”: isto porque pela razão reconhece-se como existente, algo naturalmente impossível num vegetal ou num animal; é esta a trágica realidade de Pascal.

Ainda assim, esta situação aporética do homem encontra resposta num caminho que aponta para um absoluto, para um véu que há muito foi rasgado e deu a conhecer o remédio eficaz contra esta ignobilidade. Porém, dada à inegável tendência atual para o progresso, a técnica e a ciência, há quem considere esta analogia de Pascal uma aporia absurda.

Há quem considere que o homem é um ser absoluto. Feuerbach, acreditava que o homem projetava as suas ambições de racionalidade, amor e necessidade numa divindade trina; Nietzsche chega ao extremo ao repudiar, sem medos, a tal insignificância do homem ao afirmar que “Deus está morto”; pelo contrário, o homem aqui perde o seu posto de miserável para dar lugar a um deus mortal, um super-homem que aguarda o seu advento.

Por outro lado, a ciência também despreza a tese da fragilidade do homem; há um itinerário a fazer, que parte da evolução do homem, de um âmbito teológico, para uma realidade científica, em que o ser humano é nada mais do que aquele que “faz as regras”, e rejeita qualquer conceito que lhe venha de uma realidade extrafísica.

Também a linguagem (e o seu estudo) é por vezes utilizada para fazer ruir o conceito do homem débil. Há quem, dentro da semântica, como Carnap, Ayer e Flew, considere que todos os conceitos inerentes a realidades às quais o homem não tem um acesso direto é totalmente desprovido de sentido, como é o caso do “caminho que aponta para um absoluto” que “dá a conhecer o remédio eficaz contra a ignobilidade”.

Outros como Marx e Engels consideram este remédio um alucinogénio, capaz de drogar o homem, estagná-lo, influenciá-lo e contê-lo, fazendo-o viver numa utopia, enquanto que no mundo real, as classes lutam para sustentar uma infraestrutura.

Existe ainda quem não consegue aceitar ou até mesmo perceber a nossa condição de cana pensante. Afinal somos constantemente assombrados pelo mal, que por vezes nos leva a ter uma atitude de revolta, frustração e a considerar a vida como um absurdo: “Toda a infelicidade dos homens provém da esperança” (Albert Camus)

Como se viu, o homem não tolera assumir-se como de condição miserável e esquiva-se por caminhos que procuram uma resposta que o exalte, fazendo-o inevitavelmente fugir de si e da reflexão acerca da sua finitude e fragilidade.

O único caminho que encara o homem tal como é, na sua inatingibilidade natural, é a religião revelada, e o remédio eficaz é Jesus Cristo, aquele que dignifica a miséria do homem e ensina aos grandes a humildade. O primeiro passo é preparar a vontade para acolher a revelação, em que o próprio Deus se dirige ao homem, num diálogo de amor, apresentando-lhe a sua proposta de salvação, que vence a distância infinita que separa o Criador da criatura. Tudo então se aproxima e começa a fazer sentido. Deus abandona o seu mistério, cede de boa vontade, e torna-se presente, estabelece uma relação de amizade connosco, canas miseráveis.

Elson Medeiros

2º Ano