«Cristo tornou-se naquilo que nós somos, para fazer plenamente de nós aquilo que Ele é.»

S. Ireneu

Sempre que se aproxima esta altura, parece que paira a indecisão e o vazio de saber o que vos escrever… Não que não exista uma multiplicidade de temas enorme, mas porque dada a subjetividade e liberdade temáticas, bem como a preocupação pela adequação ao interesse e enriquecimento de quem vai ler, fazem com que o conteúdo seja sempre uma incógnita.

Um dia, alguém me perguntava qual era, normalmente, a minha preocupação na elaboração destes textos. A resposta foi bastante clara: em primeiro lugar, escrever algo simples e compreensível a todos, ao mesmo tempo que, em segundo lugar, não seja mais do mesmo, ou seja, que permita fugir ao que todos já sabem, de modo a contribuir como algo mais para o conhecimento das pessoas. Para esta última intenção, nada melhor que usar aquilo que aprendemos, partilhando-o com os demais – afinal de contas de que serve aquilo que estudamos se não for em vista dos outros?

É esta noção que tenho acerca desta rúbrica designada Duc in altum, levada a cabo pelo Seminário de Angra, que desta forma chega à sociedade, por meio das letras.

E agora, se ainda vos consegui manter com a ligação deste texto aberta, passemos à reflexão propriamente dita: desta vez, refletir acerca daquele ser que é, ao mesmo tempo, tão “nós” e tão desconhecido. Não é tarefa fácil. Aliás, já dizia Blaise Pascal que «o Homem sobre-excede infinitamente o próprio Homem…», o que significa que não se compreende a si próprio.

No entanto, vamos tentar embarcar neste mar tão difícil de navegar, tendo por base algumas reflexões teológicas, que podemos encontrar sobretudo na Constituição, do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes.

É a partir deste documento, e sobretudo da I Parte, concretamente sobre a pessoa humana, que tentaremos chegar a uma conceção de Homem. Na realidade, o mundo em que se situa a Igreja do Vaticano II é o próprio Homem, não abstrato, mas como ser de relação, em todas as suas dimensões pessoais e sociais.

Mas o que é então este ser a que chamamos homem? Quais são os nossos limites?

O Homem é, em primeiro lugar, mysterium porque nem os próprios homens conseguem compreender-se perfeitamente. Isto é tão verdadeiro, que como vamos ver mais à frente, esse mistério só tem uma forma de se compreender/esclarecer: no mistério de Cristo, do Verbo Encarnado. É por meio da encarnação de Jesus que compreendemos verdadeiramente o que é ser Homem. Mas deixemos isso para mais à frente.

São tantas as questões que nos colocamos e para as quais nunca temos respostas, desde o sentido da vida, ao resultado da morte, ao surgimento do mundo e das criaturas etc… é tudo tão misterioso…

O homem é imagem de Deus. Deus é o criador e o Homem é a criatura. Até aqui todos nós compreendemos bem. Ora, a complexidade advém do facto do homem ter sido criado à imagem de Deus. Isto quer dizer que o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador, tem uma primazia face às outras criaturas, e está constituído para dominar e se servir dessas mesmas criaturas, mas segundo Deus. (GS 12) É, portanto, um ser superior às restantes coisas criadas. O homem é o cume da criação. Deus criou todas as coisas e, no fim, criou o ser que foi «criado criador»:

Não se engana o homem, quando se reconhece por superior às coisas materiais e se considera como algo mais do que simples parcela da natureza ou anónimo elemento da cidade dos homens. Pela sua interioridade, transcende o universo das coisas (…) atinge, pelo contrário, a verdade profunda das coisas. GS 14

No entanto, esta especial condição do Homem de colaborar numa espécie de criação continuada – ter sido criado criador – não lhe dá primazia perante Deus, nem lhe confere o direito a uma independência de Deus. Muito menos, ser criado criador, ser imagem de Deus, faz do homem um Deus. As coisas criadas pelo Homem são independentes dele (uma caneta escreve sem que o seu inventor esteja junto dela). Já a criação de Deus, nunca pode ser independente Dele. No século XVIII, com o Iluminismo, víamos que o Homem era a medida de todas as coisas, bem como a sua razão de ser e o seu fim. Em pleno séc. XXI, não estamos muito longe desta mentalidade. O homem sente-se capaz de tudo, um superman que consegue controlar e resolver todas as coisas através do progresso cientifico-tecnológico que conseguiu alcançar. No entanto, sem aviso prévio, sem toque na campainha, aparece-lhe uma pandemia mundial provocada por algo tão pequeno e até invisível, mas que conseguiu mandar e manipular mais do que os grandes líderes políticos dos vários estados e países. Algo que conseguiu colocar milhões de pessoas em casa, com medo e sem conhecerem o dia de amanhã. Onde estava a tremenda valentia e “omnipotência” do homem?

Nunca iremos ter o controlo total sobre as coisas, e uma aspiração a tal é contranatura, até porque há algo que está acima de nós e isso é transversal a praticamente todo o mundo, que acredita no transcendente. Para além disso, será que exercemos o domínio sobre as coisas do modo mais adequado? Usamos aquilo que nos é dado pela natureza com consciência ou apenas para proveito próprio?

Acontece também que este homem não foi criado sozinho. Logo que Deus criou o homem varão, criou também a mulher. A mensagem que daqui tiramos é clara: não se trata de uma superioridade do homem face à mulher, mas está patente a condição humana de complementaridade e comunhão de pessoas, pois pela sua natureza, o homem é um ser social, que não se pode realizar senão em relação com os outros (homem em relação… com os demais iguais a si, em dignidade).

O homem é por natureza uma criatura em estado de santidade, mas que, por ser portador de liberdade, que manuseada abusivamente constitui-se em pecado, tende a desejar alcançar o seu fim fora de Deus, numa lógica de autossuficiência e independência do seu Criador. Chama-se a isto egoísmo, isto é, quando o homem apenas olha para dentro do seu próprio coração. Trata-se de uma luta interna constante, em que o homem se encontra, de disputa entre o bem e o mal.

Perante algumas situações mais radicais, sobretudo a morte, o homem toma consciência da sua finitude (aquilo que o diferencia do ser divino). O problema não é só a questão da dissolução do corpo, mas também e sobretudo a questão da vida após a morte, o saber se tudo acaba para sempre ou se há ainda algo mais.

Ao longo dos séculos, foram muitas as tentativas e avanços científicos que tentaram apaziguar esta dimensão do temor da morte como fim último, criando formas de prolongar a longevidade biológica. No entanto, esse desejo só será colmatado com a compreensão de que essa morte corporal será vencida quando o homem for restituído à Salvação por Deus. Aqui entra a dimensão crente do homem que tem como razão mais sublime da sua dignidade a vocação de união com Deus.

A verdadeira resposta. O número 22 da GS é o cume da sua perspetiva antropológica. É a mais plena resposta que a Igreja tem para oferecer ao Homem, às suas angústias e temores. A visão cristológica é a única capaz de esclarecer o mistério do ser humano: «Na realidade, só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério do Homem». GS 22

Deus fez-se Homem, encarnou por meio de Jesus Cristo, que acolheu a nossa carne, e foi em tudo igual a nós exceto no pecado. É precisamente por ter tido esta forma de revelação, por meio da Sua colocação “na pele” do homem, que se tornou esclarecimento para o mistério do próprio homem. Porque nos mostrou como devemos SER, em todas as dimensões. Quanto mais o Homem for igual a Cristo, mais Homem será. É imitando Cristo que se é verdadeiramente Homem.

O Senhor virá! Aguardemos a Sua vinda, para aprendermos Dele como melhor ser Homem e consequentemente melhor «criado criador».

Gonçalo Brum

4º Ano