Cuida da Tua Vida Espiritual

Criados à luz da misericórdia de Deus

O grande teólogo dinamarquês do século XIX, Soren Kierkegaard, tem uma fórmula que diz o seguinte: “Para esqueceres o passado lembra-te do perdão”. Quando o passado difícil regressa à memória, é necessário lembrar o perdão dado ou recebido. Trata-se de um ato de fé que cada vez mais nos fará tomar consciência da salvação recebida. É preciso renová-lo tanto quanto necessário: “Senhor, Tu perdoaste-me! Senhor, Tu retiraste-me das trevas e conduziste-me à luz! Senhor, Tu tiveste piedade de mim!” Estes atos de fé, voluntários, afastam-nos dos remorsos que nos atormentam e dominam, remorsos inúteis pois o perdão já nos foi concedido.

Lembrar o perdão

O pecado que no passado cometemos foi uma falta de fé e um afastamento de Deus; se quisermos, podemos utilizar essa lembrança como uma oportunidade para aumentar a nossa fé, para reforçar esta ligação a Deus que outrora foi tão débil. E assim vislumbramos um sentido para a nossa existência passada: lembrando-nos sobretudo do perdão, da reconciliação e de Deus que restaurou a nossa existência. Ora, a tentação mais frequente é voltar ao passado esquecendo o perdão, reviver estas experiências dolorosas como se o perdão não tivesse qualquer efeito.

Mas é preciso ir ainda mais longe. É preciso vencer duas etapas. Não apenas dizer “Senhor, tu salvaste-me!”, mas proclamar “Senhor, eu te dou graças!”

Se o passado nos pode conduzir à tristeza, precisamos de entrar na alegria, nesta serenidade de vida em que conhecemos o preço dos nossos pecados, mas em que exultamos ainda mais pela vida sincera e livre que reencontrámos.

A alegria afasta a tentação da introversão. Agradecer ao Senhor mantém-nos neste caminho aberto à misericórdia de Deus.

Reparar o erro

Finalmente, a última etapa: reparar o erro. Aquilo que pode também apaziguar as nossas consciências é talvez a possibilidade de reparar o mal feito a Deus e ao próximo. Sabemos que o simples facto de acreditarmos no perdão de Deus, de lhe agradecermos continuamente através da nossa entrega, não chega!… O que aconteceu àquele a quem ofendemos? O que podemos fazer por aquele homem ou aquela mulher a quem magoámos? Reparar o erro. Porém, o que é que estará à altura de algumas das ofensas que cometemos contra o próximo? Muitas vezes, não podemos fazer nada de concreto. Nem sempre é possível ir ao encontro do outro, por vezes é até perigoso, pois a nossa fraqueza é enorme.

A única reparação possível é a do amor: confiar este desejo e esta vontade de amar à misericórdia de Deus que saberá fazer com que aqueles a quem ofendemos dela possam beneficiar. A lembrança do passado deve ser uma oportunidade para amar, para servir, para nos darmos realmente. A lembrança do passado deve ser um estímulo para vivermos segundo o amor a Deus e ao próximo. Na verdade, poderá ser preciso algum distanciamento dos outros para que a paz possa voltar. Mas o amor de hoje, confiado a Deus, realiza invisivelmente o seu caminho em todos os corações. Deus cria em cada um de nós à luz da sua misericórdia.

(Excerto de «As pequenas bem-aventuranças» de Paul Marcovits)

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