Formação intelectual

Formação intelectual

A formação Intelectual: a inteligência da fé

51. A formação intelectual, embora possua a sua especificidade, liga-se profundamente com a formação humana e espiritual, a ponto de constituir uma sua expressão necessária: configura-se efectivamente como uma exigência irreprimível da inteligência pela qual o homem “participa da luz da inteligência de Deus” e procura adquirir uma sabedoria que, por sua vez, se abre e orienta para o conhecimento e a adesão a Deus.

A formação intelectual dos candidatos ao sacerdócio encontra a sua específica justificação na própria natureza do ministério ordenado e manifesta a sua urgência actual de fronte ao desafio da “nova evangelização”, à qual o Senhor chama a Igreja no limiar do terceiro milénio. “Se já cada cristão -escrevem os Padres sinodais – deve estar pronto a defender a fé e a dar a razão da esperança que vive em nós” (cf. 1 Ped 3, 15), com muito maior razão os candidatos ao sacerdócio e os presbíteros devem manifestar um diligente cuidado pelo valor da formação intelectual na educação e na actividade pastoral, dado que, para a salvação dos irmãos e irmãs, devem procurar um conhecimento cada vez mais profundo dos mistérios divinos”. Além disso, a situação actual, profundamente marcada pela indiferença religiosa e ao mesmo tempo por uma difusa desconfiança relativamente às reais capacidades da razão para atingir a verdade objectiva e universal, e pelos problemas e questões inéditos provocados pelas descobertas científicas e tecnológicas, exige prementemente um nível excelente de formação intelectual, que torne os sacerdotes capazes de anunciar, exactamente num tal contexto, o imutável Evangelho de Cristo, e torná-lo digno de credibilidade diante das legítimas exigências da razão humana. Acrescente-se ainda que o actual fenómeno do pluralismo, bem acentuado não só no âmbito da sociedade humana mas também no da própria comunidade eclesial, requer uma particular atitude de discernimento crítico: é um ulterior motivo, que demonstra a necessidade de uma formação intelectual o mais séria possível.

Esta motivação “pastoral” da formação intelectual confirma quanto se disse já sobre a unidade do processo educativo, nas suas diferentes dimensões. A obrigação do estudo, que preenche uma grande parte da vida de quem se prepara para o sacerdócio, não constitui de modo algum uma componente exterior e secundária do crescimento humano, cristão, espiritual e vocacional: na realidade, por meio do estudo, particularmente da teologia, o futuro sacerdote adere à palavra de Deus, cresce na sua vida espiritual e dispõe-se a desempenhar o seu ministério pastoral. É este o objectivo unitário e multifacetado do estudo teológico preconizado pelo Concílio e reproposto pelo Instrumentum laboris do Sínodo: “Para que possa ser pastoralmente eficaz, a formação intelectual deve ser integrada num caminho espiritual marcado pela experiência pessoal de Deus, de modo a poder superar uma pura ciência conceptual e chegar àquela inteligência do coração que sabe “ver” primeiro o mistério de Deus e depois é capaz de comunicá-lo aos irmãos”.

52. Um momento essencial da formação intelectual é o estudo da Filosofia que leva a uma compreensão e interpretação mais profunda da pessoa, da sua liberdade, das suas relações com o mundo e com Deus. Aquela revela-se de grande importância, não apenas pelo nexo que existe entre os argumentos filosóficos e os mistérios da salvação estudados em teologia, à luz superior da fé (160), mas também face a uma situação cultural bastante generalizada que exalta o subjectivismo como critério e medida da verdade: somente uma sã filosofia pode ajudar os candidatos ao sacerdócio a desenvolverem uma consciência reflexiva da relação constitutiva existente entre o espírito humano e a verdade, essa verdade que se nos revela plenamente em Jesus Cristo. Nem é de subestimar a importância da filosofia no sentido de garantir aquela “certeza da verdade”, a única que pode estar na base da entrega pessoal a Jesus Cristo e à Igreja. Não será difícil compreender como algumas questões muito concretas, quais são a identidade do sacerdote e o seu compromisso apostólico e missionário, se encontrem profundamente ligadas à questão, nada abstracta, da própria verdade: se não se está certo da verdade, como é possível pôr em jogo a própria vida inteira e ter força para interpelar a sério a vida dos outros?

A filosofia ajuda imenso o candidato a enriquecer a sua formação intelectual com o “culto da verdade”, isto é, uma espécie de veneração amorosa pela verdade, que leva a reconhecer que esta não é criada e medida pelo homem, mas é confiada ao homem como dom da Verdade suprema, Deus; que, mesmo com limites e por vezes com dificuldade, a razão humana pode atingir a verdade objectiva e universal, inclusive aquela que diz respeito a Deus e ao sentido radical da existência; que a própria fé não pode prescindir da razão e do afã de “pensar” os seus conteúdos, como testemunhava a grande mente de Agostinho: “Desejei ver com a inteligência o que acreditei, e muito tive que discutir e esforçar-me”.

Para uma compreensão mais profunda do homem, bem como dos fenómenos e das linhas evolutivas da sociedade, em ordem ao exercício o mais “incarnado” possível do ministério pastoral, podem ser de grande utilidade as chamadas “ciências do homem” como a sociologia, a psicologia, a pedagogia, a ciência da economia e da política, a ciência da comunicação social. Embora sejam do âmbito bem preciso das ciências positivas ou descritivas, estas ajudam o futuro sacerdote a prolongar a “contemporaneidade” vivida por Cristo. “Cristo – dizia Paulo VI – fez-se contemporâneo a alguns homens e falou a sua linguagem. A fidelidade ao mesmo Cristo exige que esta contemporaneidade continue”.

53. A formação intelectual do futuro sacerdote baseia-se e constrói-se sobretudo sobre o estudo da sacra doctrina, da teologia. O valor e a autenticidade da formação teológica dependem do respeito escrupuloso pela própria natureza da teologia, que os Padres sinodais compendiaram do seguinte modo: “A verdadeira teologia provém da fé e quer conduzir à fé” . É esta a concepção que a Igreja, e o seu Magistério de uma forma especial, têm constantemente proposto. É esta a linha seguida pelos grandes teólogos que, ao longo dos séculos, vêm enriquecendo o pensamento da Igreja. S.Tomás é bem explícito ao afirmar que a fé é como que o habitus da teologia, ou seja, o seu princípio operativo permanente, (164) e que toda a teologia se ordena para a alimentação da fé.

Portanto o teólogo é antes de mais um crente, um homem de fé. Mas é um crente e fá-lo sobre a própria fé (fides quaerens intellectum), que se interroga com o fim de atingir uma compreensão mais profunda da própria fé. Os dois aspectos, a fé e a reflexão madura, estão profundamente conexos, entrelaçados: precisamente a sua íntima coordenação e compenetração decide a verdadeira natureza da teologia, e, consequentemente decide, os conteúdos, modalidades e espírito, segundo o qual a sacra doctrina deve ser elaborada e estudada.

Porque a fé, ponto de partida e de chegada da teologia, realiza uma relação pessoal do crente com Jesus Cristo na Igreja, também a teologia possui intrínsecas conotações cristológicas e eclesiais, que o candidato ao sacerdócio deve conscientemente assumir, não só pelas implicações que dizem respeito à sua vida pessoal, mas também por aquelas que tocam o seu ministério pastoral. Se é acolhimento da Palavra de Deus, a fé gera um “sim” radical do crente a Jesus Cristo, Palavra plena e definitiva de Deus ao mundo (cf. Heb 1, 1-2). Em consequência disto, a reflexão teológica encontra o próprio centro na adesão a Jesus Cristo, Sabedoria de Deus: a própria reflexão madura deve considerar-se uma participação no “pensamento” de Cristo (cf. 1 Cor 2, 16), na forma humana de uma ciência (scientia fidei). Ao mesmo tempo, a fé insere o crente na Igreja e torna-o participante na vida desta, enquanto comunidade de fé. Por conseguinte, a teologia possui uma dimensão eclesial porque é uma reflexão madura sobre a fé da Igreja, realizada pelo teólogo que é membro da Igreja.

Estas perspectivas cristológicas e eclesiais, que são conaturais à teologia, ajudam a desenvolver nos candidatos ao sacerdócio, juntamente com o rigor científico, um grande e vivo amor a Jesus Cristo e à sua Igreja: este amor, ao mesmo tempo que nutre a sua vida espiritual, orienta-os para o generoso desempenho do seu ministério. No fim de contas, era precisamente esta a intenção do Concílio Vaticano II ao solicitar a reorganização dos estudos eclesiásticos, dispondo melhor as várias disciplinas filosóficas e teológicas e fazendo com que elas “se coordenem de forma apta e concorram de modo harmónico para que a mente dos alunos se abra ao mistério de Cristo, que atinge toda a história do género humano, continuamente penetra a vida da Igreja e se actua principalmente através do ministério sacerdotal”.

A formação intelectual teológica e a vida espiritual, particularmente a vida de oração, encontram-se e reforçam-se mutuamente, sem nada tirar nem à seriedade da investigação nem ao sabor espiritual da oração. S. Boaventura adverte-nos: “Ninguém pense que lhe baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem o assombro, a observação sem a exultação, a actividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, a investigação sem a sabedoria da inspiração divina”.

54. A formação teológica é uma obra complexa e, por isso, exigente. Ela deve levar o candidato ao sacerdócio a possuir uma visão das verdades reveladas por Deus em Jesus Cristo e da experiência de fé da Igreja que seja completa e unitária: daqui a dúplice exigência de conhecer “todas” as verdades cristãs, sem fazer opções arbitrárias e de as conhecer de modo orgânico. Isto requer que o aluno seja ajudado a realizar uma síntese que constitua o fruto dos dados fornecidos por todas as disciplinas teológicas, cuja especificidade adquire um autêntico valor apenas na sua profunda coordenação.

Na sua reflexão amadurecida sobre a fé, a teologia move-se em duas direcções. A primeira é a do estudo da Palavra de Deus: a palavra escrita nos Livros Santos, celebrada e vivida pela Tradição viva da Igreja,e interpretada com autoridade pelo seu Magistério. Daqui o estudo da Sagrada Escritura, “que deve ser como que a alma de toda a teologia”, o estudo dos Padres da Igreja e da Liturgia, da História da Igreja e da doutrina do Magistério. A segunda direcção é a do homem, interlocutor de Deus: o homem chamado a “crer”, a “viver”, a “comunicar” aos outros a fides e o ethos cristão. Daqui o estudo da dogmática, da teologia moral, da teologia espiritual, do direito canónico e da teologia pastoral.

A referência ao homem crente leva a teologia a ter uma particular atenção, por um lado, à instância permanente e fundamental da relação fé-razão, por outro, a algumas exigências mais ligadas com a situação social e cultural de hoje. No primeiro caso, está o estudo da teologia fundamental, que tem por objecto o facto da revelação cristã e a sua transmissão na Igreja. No segundo, temos as disciplinas que conheceram e conhecem um mais decidido desenvolvimento como resposta a problemas hoje sentidos mais fortemente. Assim o estudo da doutrina social da Igreja, que “pertence ao campo da teologia, e especialmente da teologia moral”, e que é de ter em conta entre as “componentes essenciais” da “nova evangelização”, de que constitui um instrumento. Da mesma forma, o estudo da missão e do ecumenismo, do judaísmo, do islamismo e das outras religiões não cristãs.

55. A formação teológica actual deve prestar atenção a alguns problemas que muitas vezes levantam dificuldades, tensões, confusões no interior da vida da Igreja. Pense-se no relacionamento entre as tomadas de posição do Magistério e as discussões teológicas, que nem sempre se processa como deveria ser, ou seja, sob o signo da colaboração. Certamente, “o Magistério vivo da Igreja e a teologia, mesmo tendo dons e funções diferentes, têm em última análise o mesmo fim: conservar o Povo de Deus na verdade que liberta fazendo dele, assim, «luz das nações». Este serviço à comunidade eclesial põe em relação recíproca o teólogo com o Magistério. Este último ensina autenticamente a doutrina dos apóstolos, e beneficiando do trabalho teológico, refuta as objecções e as deformações da fé, propondo, além disso, com a autoridade recebida de Jesus Cristo, novos aprofundamentos, explicitações e aplicações da doutrina revelada. A teologia, por sua vez, adquire de modo reflexivo, uma compreensão sempre mais profunda da Palavra de Deus, contida na Sagrada Escritura e transmitida fielmente pela Tradição viva da Igreja sob a orientação do Magistério, procura esclarecer o ensinamento da Revelação diante das solicitações da razão, e lhes confere, enfim, uma forma orgânica e sistemática”. Porém, no momento em que, por uma série de motivos, esta colaboração esmorece, é preciso não se deixar levar por equívocos ou confusões, sabendo distinguir cuidadosamente “entre a doutrina comum da Igreja e as opiniões dos teólogos ou as tendências que depressa passam (as chamadas ‘modas’)”. Não existe um magistério “paralelo”, porque o único Magistério é o de Pedro e dos apóstolos, do Papa e dos Bispos.

Outro problema, sentido sobretudo onde os estudos seminarísticos são confiados a instituições académicas, diz respeito à relação entre o rigor científico da teologia e o seu objectivo pastoral, e, por conseguinte, à natureza pastoral da teologia. Trata-se, na realidade, de duas características da teologia e do seu ensino, não se opõem entre si, antes concorrem ambas, ainda que em perspectivas diversas, para uma “inteligência da fé” mais completa. Efectivamente a pastoralidade da teologia não significa uma teologia menos doutrinal, ou inclusivamente destituída da sua cientificidade; significa antes que essa teologia habilita os futuros sacerdotes a anunciar a mensagem evangélica através dos modos culturais do seu tempo e a considerar a acção pastoral segundo uma autêntica visão teológica. E assim, por um lado, um estudo respeitador da cientificidade rigorosa de cada uma das disciplinas teológicas contribuirá para uma mais completa e profunda formação do pastor de almas como mestre da fé; por outro, a adequada sensibilidade ao objectivo pastoral tornará verdadeiramente formativo para os futuros sacerdotes o estudo sério e científico da teologia.

Um ulterior problema é posto pela exigência, hoje fortemente sentida, da evangelização das culturas e da inculturação da mensagem da fé. Este é um problema eminentemente pastoral, que deve entrar com maior amplitude e sensibilidade na formação dos candidatos ao sacerdócio: “Nas actuais circunstâncias em que, em várias regiões do mundo, a religião cristã é considerada como algo de estranho às culturas quer antigas quer modernas, é de grande importância que em toda a formação intelectual e humana se considere como necessária e essencial a dimensão da inculturação”. Mas isto exige primariamente que se tenha uma teologia autêntica, inspirada nos princípios católicos sobre a inculturação. Estes princípios estão ligados ao mistério da incarnação do Verbo de Deus e à antropologia cristã e iluminam o sentido autêntico da inculturação: esta, diante das mais diversas e por vezes contrastantes culturas presentes nas várias partes do mundo, pretende ser uma obediência ao mandato de Cristo de pregar o Evangelho a todas as gentes até aos extremos confins da terra. Uma tal obediência não significa sincretismo nem simples adaptação do anúncio evangélico, mas que o Evangelho penetra vitalmente nas culturas, se incarna nelas, superando os elementos culturais das mesmas que são incompatíveis com a fé e a vida cristã, e elevando os seus valores ao mistério da salvação que provém de Cristo. O problema da inculturação pode ter um interesse específico quando os próprios candidatos ao sacerdócio provêem de culturas autóctones: terão necessidade, então, de caminhos adequados de formação, seja para superarem o perigo de ser menos exigentes e de desenvolver uma educação mais superficial dos valores humanos, cristãos e sacerdotais, seja para valorizarem os elementos bons e autênticos das suas culturas e tradições.

56. Seguindo os ensinamentos e orientações do Concílio Vaticano II e as indicações aplicativas da Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis, determinou-se na Igreja uma vasta actualização do ensino das disciplinas filosóficas e sobretudo teológicas nos seminários. Apesar de ainda carecida em alguns casos de posteriores correcções e desenvolvimentos, essa actualização contribuiu no seu conjunto para valorizar cada vez mais a proposta educativa, no âmbito da formação intelectual. A este respeito, “os Padres sinodais afirmaram novamente com frequência e clareza a necessidade, melhor, a urgência de que seja aplicado nos seminários e nas casas de formação o Plano fundamental de Estudos, tanto o universal, como o de cada Nação ou Conferência Episcopal”.

É necessário contrariar decididamente a tendência a reduzir a seriedade e exigência dos estudos, que se manifesta em alguns contextos eclesiais, como consequência já de uma preparação de base insuficiente e lacunosa dos alunos que iniciam o currículo filosófico e teológico. É a própria situação contemporânea a exigir que os mestres estejam cada vez mais à altura da complexidade dos tempos e em condições de afrontar com competência, clareza e profundidade de argumentação as carências de sentido dos homens de hoje, às quais apenas o Evangelho de Jesus Cristo dá resposta cabal.

João Paulo II, Pastores dabo vobis, 51-56