Anawim

Pelo padre Miguel Tavares

Os pobres no Evangelho de Jesus compõe um dos eixos mais importantes da mensagem cristã, articulando dimensões bíblicas, antropológicas e éticas. Não é, de forma alguma, um tema secundário. Os pobres emergem como um lugar hermenêutico privilegiado para compreender a revelação do Deus de Jesus e a missão do próprio Jesus Cristo. Os pobres não são apenas destinatários da ação salvífica, mas verdadeiros mediadores da presença de Deus na História.

Já no Antigo Testamento, a pobreza é descrita como uma condição espiritual. Os chamados anawim, os pobres do Senhor, são aqueles que, privados de segurança, colocam a sua confiança em Deus. O Salmo 34 exprime esta realidade de uma forma paradigmática: “Este pobre clamou, e o Senhor o ouviu, e o salvou de todas as suas angústias” (Sl 34,7). A pobreza aparece, assim, como espaço de abertura à ação de Deus. Mas a pobreza, já no Antigo Testamento, possui uma dimensão social. Os Profetas denunciam com vigor as injustiças que produzem e perpetuam a pobreza.

No Novo Testamento, Jesus inaugura o seu ministério com uma declaração programática que retoma o profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18). Isto mostra-nos a prioridade dos pobres na missão de Jesus, mas também a natureza da salvação que tem dimensões espirituais, sociais, existenciais e até mesmo políticas (Pólis).

As bem-aventuranças, carta magna do cristianismo, formam o núcleo mais expressivo desta inversão evangélica operada pelo Messias libertador. Em Lucas, Jesus proclama: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). Gustavo Gutiérrez afirmava, “a pobreza evangélica não pode ser reduzida a uma atitude espiritual, ignorando a realidade histórica dos pobres” (Teologia da Libertação, 1971). Para Gutiérrez, a bem-aventurança dos pobres compromete uma denúncia das estruturas injustas e um compromisso efetivo com a transformação social.

Na minha opinião, o proceder de Jesus confirma esta leitura. Ele aproxima-se sempre dos marginalizados, dos últimos, dos doentes, dos pobres, rompendo com as normas de pureza e exclusão do seu tempo. O seu comportamento para com os leprosos (Mc 1,40-45), os publicanos (Lc 19,1-10) e os pecadores revela uma lógica de inclusão absoluta. A parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16,19-31) é uma crítica à indiferença social: o rico não é condenado por ser rico, mas por ser indiferente. E é essa indiferença que o torna injusto.

A dimensão mais profunda da pobreza é expressa na Encarnação do Verbo. O itinerário de Jesus, do presépio ao calvário, mostra-nos exatamente isso (como nos recordava o Beato Antoine Chevrier). Isto revela-nos um Deus que assume a condição humana em toda a sua fragilidade e dimensão. Segundo Hans Urs von Balthasar, esta descida de Deus constitui o núcleo da revelação cristã. Deus manifesta-se não no poder, mas na vulnerabilidade e no dom de si mesmo. Logo, a pobreza torna-se o critério de autenticidade do discipulado. Seguir Jesus implica uma relação crítica com a riqueza e uma abertura concreta à partilha e à comunhão.

Leonardo Boff defendia que “os pobres não são apenas aqueles a quem se deve ajudar, mas aqueles a partir dos quais se deve pensar a fé” (Jesus Cristo Libertador, 1972). O centro da reflexão teológica está nas periferias, reconhecendo nos pobres um lugar privilegiado da revelação, como sempre defendeu e ensinou o Papa Francisco.

Os pobres são um “lugar” de encontro com Deus e com os homens. É neste encontro que o Evangelho encontra a sua expressão mais radical, mais autêntica e mais exigente.

 

 

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