Vem e segue-me

No próximo dia 14 de junho, D. Armando Domingues, bispo da diocese de Angra, irá ordenar presbítero o diácono Fábio de Sousa Silveira, o qual fez o seu trajeto formativo no Seminário de Angra. Neste ano pastoral 2025/2026 o diácono Fábio Silveira tem estado a realizar um estágio na Ouvidoria da Povoação. Em novembro último, já tinha sido ordenado Diácono.
Este acontecimento é, sem dúvida, motivo de alegria para a nossa Igreja diocesana.
Em cada um de nós reside o mistério da vocação.
Alguém que se sente atraído por Jesus Cristo ouve o apelo, faz o discernimento do apelo dos outros, responde ao apelo. Por detrás deste itinerário está a fé. Na fé avança-se com as interrogações, as dúvidas, as fadigas, as falhas, as forças… em suma, com a sua humanidade, para dizer sim ao projeto de Deus sobre a sua pessoa e sobre a Igreja.
Na sua Exortação apostólica Pastores dabo Vobis nº 34, de 1992, o papa João Paulo II diz-nos o seguinte sobre a vocação sacerdotal: “A Igreja é convidada a aprofundar o sentido original e pessoal do apelo a seguir Jesus Cristo, no ministério sacerdotal. Ela é chamada a explicar e a descrever o dinamismo próprio da vocação, o seu desenvolvimento gradual e concreto segundo as seguintes etapas: procurar Jesus, segui-lo, e permanecer com Ele”.
É neste espírito de procurar Jesus, de O seguir e de permanecer com Ele que a nossa vocação permanece em movimento e evita o imobilismo. Cada um é chamado com a sua sensibilidade, a sua história, o seu caráter, os seus talentos e as suas fragilidades.
Alguns filhos da Igreja são escolhidos para o sacerdócio com a sua humanidade imperfeita. Ser conscientes das próprias fragilidades é um sinal determinante para aceitar as nossas pobrezas e não ceder ao medo.
O papa Bento XVI, na missa crismal de 2006, dizia que «as nossas pobrezas não são um obstáculo à graça de Deus». Dizia ainda: «Por vezes tivemos medo e dissemos como Pedro»: “Afasta-te de mim, Senhor porque sou um homem pecador” (Lc 5,8). Jesus tranquiliza-nos com a expressão: “Não temas”. E vai mais longe. Nós podemos sempre dizer-lhe: “Senhor, salva-me” (Mt 14,30).
Cultivar a vida interior
Na vida de um padre é fundamental cultivar a vida interior. Só um ser que tem uma boa qualidade de vida interior poderá irradiar benevolência, amor e paz.
Não é bom separar o conhecimento de si e o conhecimento de Deus. Os desvios são fáceis. Conhecer-se a si sem conhecer Deus gera o desespero, e conhecer Deus sem se conhecer bem pode facilitar o orgulho e a arrogância.
As pessoas buscam cada vez mais na missão do padre um homem capaz de ler e interpretar a sua vida, por vezes atormentada.
A vida espiritual não pode crescer e desabrochar sem um elemento estruturante da vida interior: a solidão. Sem a solidão não se pode colher o sentido da vida na sua densidade. O ser humano é um ser social, feito para as relações mas só aqueles que sabem integrar na sua vida a dimensão da solidão são capazes de viver relações autênticas. O lado negativo da solidão é o isolamento. Aquele que, ao procurar a interioridade, cai no intimismo fecha-se aos outros, impede a alteridade e a sã complementaridade.
A vida interior progride quando somos dóceis ao Espírito Santo.
Santo e discípulo
Na renovação do nosso ser com as suas imperfeições e fadigas, Deus recentra-nos na lógica evangélica: «Os santos fazem-nos também compreender que Deus não olha aos grandes nomes e aos sucessos exteriores, mas conta-nos as suas vitórias no humilde sinal do grão de mostarda» (Bento XVI – Missa crismal de 5 de abril de 2012).
«Todos os presbíteros são chamados a sempre cuidar da sua formação, para manter vivo o dom de Deus recebido com o sacramento da ordem… Ao longo da vida sacerdotal o sacerdote é sempre discípulo com o desejo de se configurar a Cristo. Apenas esta relação de obediente seguimento e fiel discipulado pode manter a mente e o coração na direção certa, apesar das perturbações que a vida reserva» (Leão XIV -Carta Apostólica: Uma fidelidade que gera futuro – 8 de dezembro de 2025).
A graça da fraternidade
«A fraternidade sacerdotal deve ser considerada como um elemento constitutivo da identidade dos ministros, não como simples ideal, mas como um ponto a ser trabalhado com renovado vigor… O cuidado mútuo, em particular a atenção para com os irmãos mais sós, isolados, enfermos e idosos, não pode ser considerado menos importante do que o cuidado para com o povo que nos está confiado» (Leão XIV – Carta Apostólica: Uma fidelidade que gera futuro)
Acender o fogo para hoje, para cada dia
“Sempre, mas sobretudo nos momentos de provação, devemos voltar aos momentos luminosos em que fizemos a experiência do apelo do Senhor a consagrar a nossa vida ao seu serviço. É o que eu gosto de chamar a memória deuteronómica da vocação que nos permite voltar a esse ponto incandescente em que a graça de Deus me tocou no princípio do caminho. É desta centelha que eu posso acender o fogo para hoje, para cada dia, e levar o calor e a luz aos meus irmãos e às minhas irmãs. Nesta centelha se acende uma alegria humilde, uma alegria que não ofende a dor e o desespero, uma alegria boa e doce.» (Papa Francisco – 4 de agosto de 2019)
Que este mês de junho possamos rezar por aqueles que se deixam atrair por Jesus Cristo e querem conhecê-lo, amá-lo e segui-lo mais de perto. Tenhamos presente o Fábio Silveira neste seu sim definitivo a Jesus Cristo e à Sua Igreja. Mas tornemos presentes, igualmente, nas nossas orações os três jovens do nosso Seminário: o Élson, o Afonso e o David que continuam a discernir e a fortalecer o seu itinerário vocacional.
Que o Senhor continue a despertar nos corações dos jovens o desejo de se deixarem atrair e configurar a Jesus Cristo.
