Pelo padre Miguel Tavares

Perdoar é uma das maiores liberdades do coração. É uma via, um caminho de esperança para a nossa cura pessoal, se for o caso. O perdão, no entanto, é um desafio da alma, da interioridade. É a libertação pessoal do peso que oprime o coração. É deixar ir… partir… seguir para diante, sem ódios ou rancores. Simplesmente ir e desejar o bem…
O perdão é reconhecer o que somos e o que temos vivido. Numa das cenas mais famosas da narrativa bíblica, o beijo de Judas (Mt 26, 47-50; Mc 14, 43-45; Lc 22,47-48), quando este se aproxima de Jesus para o entregar, Jesus chama-o de amigo e não de traidor. Não o acusa, acolhe-o uma vez mais. A atitude de Judas não modificou o caráter de Jesus. Talvez, Judas amava apenas aquilo que ele pensava que Jesus lhe tinha para oferecer… Mas isso não impediu Jesus de amar Judas, até ao fim, “Amigo, a que vieste?”
Eu acredito que o último olhar de Jesus para Judas foi um olhar de perdão! Somos todos peregrinos do perdão…
O perdão é bálsamo da esperança. Pois, quando a esperança passa pela estrada da dor, o que ela gera é uma força ainda maior para não desistirmos. A fé ajuda a semear o nosso caminho de esperança e a saber perdoar.
Sem esperança é como se caminhássemos num sótão velho, sujo e cheio de tralhas velhas, com um chão inseguro, prestes a desabar, sem sabermos muito bem o que tem por debaixo desse sótão. Sem esperança o perdão torna-se uma ilusão, uma ideia romântica. É a esperança que nos oferece a coragem de ir adiante, de não desistir, de caminhar com convicção apesar dos nossos medos. A esperança é o lugar da Ascensão, como a de Jesus, que nos faz olhar essencialmente para o coração. A esperança não bate à nossa porta, entra, rompe com ternura o nosso coração fechado por… medo de perdoar, por medo de amar! (Jo 20,19)
Como anda o meu coração? Quais são os meus medos? Que lugar tem a esperança e o perdão na minha vida?
