NÃO NOS ARDIA O CORAÇÃO QUANDO ELE NOS FALTAVA?

Esta talvez foi a maior tensão da sociedade contemporânea, após conflitos passados, que perduraram até à década de noventa. O supremo ser humano, o invencível, o autossuficiente, o absoluto, o incondicional, foi expugnado por um vírus, uma designação que a própria ciência tem dificuldades em catalogar, uma vez que não chega sequer a ser “vivo”; o homem viu-se derrotado por uma “partícula patogénica” e caiu, com ele, a sua hegemonia.

Há meses atrás, votava-se no parlamento o “direito de causar a morte em alguém, ou de morrer por esse propósito”; a vida, de um momento para o outro, parecia ter deixado de possuir valor. Hoje, ninguém quer morrer. O homem caiu assim numa ridícula contradição, numa falsa dicotomia.

Face ao bem geral, tudo foi suspenso, inclusive as celebrações litúrgicas, que convergiam para o ponto máximo da vida cristã, a Páscoa. Não faltou pão certamente, pela escassez de farinha nos supermercados. Mas o pão partido em comunhão é que é a máxima da comunidade; “Triste de quem vive em casa, contente com o seu lar, sem que um sonho (…), faça até mais rubra a brasa da lareira a abandonar”.

Quantos de nós, ao recordar a azáfama dominical a que estávamos habituados, ao dia de festa semanal, ao trazer à memória a família reunida no dia da Ressurreição, ao televisionar o “deserto” no Vaticano em que vagueava um só homem a carregar nos ombros  o peso da nossa inexpugnabilidade, ao nos darmos conta da ausência do mar de luzes em Fátima e de milhares de açorianos no campo de São Francisco, … quantos de nós não estávamos com o “coração ardido”?

Tenhamos então consciência que a ardência do coração suscita em nós um sentimento de falta e de busca… este, que é o “órgão do amor” anseia pelo outro, pela fraternidade, pela comunidade, que é local privilegiado para o encontro e comunhão com Deus, que nos faltou de modo “convencional”, mas que não deixa de ir ao nosso encontro.

Recordar, fazer arder, consciencializar: três passos fundamentais neste novo recomeço. Embora afastados, isolados fisicamente, que predomine sempre o calor fraterno que nos une, e nos humaniza.

Élson Medeiros

1º Ano