“Não desprezeis a Fé grande, Senhor, com que vos rogamos,

Fazei como o Pai Divino, mas não que nós o mereçamos!” (Oração final do Terço cantado ao Divino Espírito Santo na ilha do Pico)

 

Há cinquenta dias atrás, Jesus levantou-se glorioso do sepulcro para voltar à vida entre nós. Há oitenta dias atrás levantou-se soberana e abatendo-se sobre o mundo, uma das maiores pandemias que o homem vira até hoje.

Para nós, cristãos, será de todo, mais fácil de entender a mensagem que tudo isto nos quer transmitir. Vivíamos em plena Quaresma quando o temível se aproximou da nossa realidade, privando-nos da vida social, comunitária, e até familiar, uma autentica penitência quaresmal, mas desta vez, imposta! Eis que no auge desse novo tempo, no pico do seu desenvolvimento, Jesus morre, e ressuscita para mais uma vez mostrar o poder e o valor da vida. Ele está entre nós. Através de pequenos gestos, vai mostrar-nos que está sempre conosco e que desistir não é um hábito cristão. Lutou conosco, isolou-se conosco, resistiu conosco, e sobreviveu conosco, e num gesto suave, 40 dias após a sua Páscoa, sobe aos céus, quando toda esta provação que a vida nos colocou à frente, parece dar tréguas, e quando se começa a sentir novamente alguma segurança e confiança numa caminhada para a normalidade.

Em semanas de Ascenção e Pentecoste, o povo retoma aos poucos a sua vida comunitária, semanas, para um povo açoriano, de grande peso na vivência da sua Fé. Terras insulares particularmente abençoadas e protegidas pelo Divino, estas mostram, através de atos populares, que celebram aquele que voltou à vida há 70 dias atrás. Só assim o poderia ser, pois sem Páscoa não haveria Pentecostes.

Com raízes profundamente religiosas e com uma fé arrebatadora, o povo açoriano, do Oriente ao Ocidente encontrou as mais mimosas formas de celebrar o Amor de Deus invocando o Divino Espírito Santo, ritos com centenas de anos que imploravam, sobretudo, que o Bom Deus tivesse piedade das suas gentes e os poupasse ao terror dos “abalos de terra”. Um povo que vive século após século com o medo de quem dorme e trabalha em cima de vulcões, mas com a confiança da proteção d’Aquele que nunca os abandonou.

Neste ano da graça, esta popularidade talvez ganhará outra cor e outro sentido. A preocupação patente nas almas de cada um, é certamente, a partilha que este ano está condicionada. Em todo o arquipélago a partilha do pão e da carne que alimenta os mais pobres e é feita com o mais genuíno amor, impera e até nisso o nosso povo se consegue adequar, pois a Festa do Divino é a festa da partilha, a festa dos pobres, a festa do povo.

O convívio que a festa proporciona está condicionado, mas a grande festa faz-se no coração de cada um, e este ano mais do que nunca. Nas nossas comunidades continuam a ecoar os sons dos cantares ao Divino Espírito Santo, das orações do terço, dos foliões, e principalmente dos clamores fervorosos que acompanham a suave lágrima que escorre pelo rosto.

Como poderíamos explicar a este povo o seu “Senhor Espírito Santo” com teologias ou palavras que não falam a linguagem do coração?

As línguas de fogo que desceram sobre os apóstolos, continuam a incendiar hoje os corações desta gente que acarinha e se sente acarinhada pelo seu Senhor na jornada da vida.

 

Fábio Silveira

1º Ano