Quando as emoções caem sob a forma de chuva, que rios é que nascem? Uma pequena gota de chuva, dançando em desfiladeiro abaixo, encontra outra pequena gota de chuva. De mãos dadas, formam apenas uma: morrem para que haja algo maior. Só um ouvido atento, um coração que, mais do que ouvir, sabe escutar, consegue sentir as vibrações cintilantes e harmónicas das inúmeras gotas de água que escorrem das nuvens e que trazem consigo uma mensagem de esperança e de renovação de todas as coisas. Um coração que sabe escutar, é capaz de perceber que a vida brota de pequenas coisas: de pequenas gotas que se descobrem, num propósito único, desfiladeiro abaixo, formando cada vez mais e maior corrente. É tão misteriosa a formação de um rio como misterioso é descrever o poder curativo do som que dele flui. Rios não são violentos, violentas são as margens que o aprisionam. Rios não têm obstáculos, pois a água abre caminho mesmo através da rocha, encontrando outro rumo. Rios podem separar-se em duas fontes que irrigam vida, seguindo caminhos opostos, sem que deixem de ser uma única essência, um único rio. Quaisquer que sejam as lutas e triunfos dos rios, qualquer que seja o modo como o experimentam, a verdade é que, em breve, todos fundem-se numa só coisa, como a tinta aguada de uma aquarela multicolor sob um papel pálido. A luta de um rio está em caminhar, através de melodias singulares, em direção ao mar. O seu triunfo está em renovar e irrigar tudo e todos por onde caminha. O rio cumpre a sua missão quando o seu destino cruza-se, num momento inesperado, com o mar, reacendendo a esperança e despertando o amor. É a mais e maior bela prova de que, duas coisas, não se encontram por acaso. A água doce do rio cumpre o seu propósito ao (con)fundir-se com a água salgada do mar: um mesmo elemento, com propósitos diferentes, que se fundem segundo a natureza, para fortalecer, transformar e abarcar as mais diversas formas de vida. Ninguém sabe quando começa um rio nem onde este acaba. Rios são únicos, como únicas são as suas águas: podemos entrar num rio vezes sem conta, mas nunca na mesma água, pois o rio vive da sua renovação constante. A água que tocamos suavemente ao estender a nossa mão sob as margens de um rio, jamais será a mesma quando estendermos a mesma mão uma segunda vez. Nos rios, não fluem passado nem futuro: a água é sinal de um presente sempre único e constante. Só alguém capaz de sentir e ligar-se a todas estas coisas é capaz de afirmar que “os homens, por vezes, parecem-se com os rios”. Fê-lo Tolstói. Afirmava que “todos os homens [como todos os rios] são feitos dos mesmos elementos, mas ora são estreitos, ora são rápidos, ora largos, ora plácidos, claros ou frios, turvos ou tépidos.”. Os rios não sonham em ser como os homens. Mas os homens, que podem sonhar em ser como os rios, não sonham em ser como eles. Os sonhos podem ser coisas tão perigosas: podem queimar como o fogo, e às vezes consumir-nos completamente. Alguns dos sonhos dos homens conseguem ser tão vãs que, se fossem transformados para o mundo material, assemelhar-se-iam a ilhas abandonadas no meio de um imenso oceano, sem passado e sem futuro. Homens devem sonhar de olhos abertos: “a esperança é o sonho do homem acordado” (Aristóteles).

Nem todos os rios nascem nas nuvens. Alguns nascem nos corações dos homens. A felicidade não é para ser esperada. A felicidade é uma dádiva inesperada advinda da esperança semeada no nosso coração por alguém maior do que nós, que nos faz chover inúmeras gotas de água, para que se forme um imenso rio pelo nosso coração abaixo, sinal de esperança e de vida. Devemos e podemos ser donos de um rio que jorra eternamente em direção a um mar que nos é próximo e que se extravasa e completa somente quando existe um “tu”, uma outra pessoa à nossa volta. Juntos, formamos um rio cada vez maior e maior. Juntos, somos sinais de esperança e de vida onde quer que passemos, só temos de dar as mãos e caminhar montanha abaixo. Perder uma gota de água é insignificante, mas este rio não será a mesma coisa e possuirá um tamanho menor.

Nem todos os rios nascem nos corações… alguns nascem nas montanhas e são simplesmente… rios. Mas isso não significa que não sejam belos nem importantes!

 

Pedro Carvalho

5º Ano