Há alguns dias uma amiga enviou-me fotos da sua recente visita aos Campos de Concentração em Auschwitz, que se encontravam banhados por uma leve e pura neve. Disse-me que ali teve a sua grande experiência de liberdade, onde Etty Hillesum foi capaz de evocar um Deus, num céu que atribuiu como casa sua, quando se é capaz de trazer a sua totalidade, como quem sabe que a verdadeira liberdade não pode ser subtraída, por não haver uma geografia própria. Esta liberdade que é como um arco-íris, que surge partindo da posição dos olhos de quem o observa, estando sempre mais além.

Estamos a viver por estes dias o Advento que é um guia, uma estrela que surge a céu-aberto para um Natal que atarefadamente nos toma por todos os lados. É um tempo para entendermos esta ulterior liberdade que é a de podermos vivenciar a experiência de nascer sob o signo da comum Criação. Este tempo privilegiado que não deve ser de espera (o verbo esperar dá-me sempre a sensação de uma enorme passividade), mas de vigilância, de preparação para um Infante que nos é dado enquanto luz que alumia e que nasce na nossa vida, na metanoia necessária.

O que pode unir Auschwitz ou Lesbos ao nosso presépio? O nascimento indigente de um Deus Infante que vem habitar o nosso meio, dançar nos nossos lares e que nem sempre se faz notar no meio do horror, do caos a que podemos votar a parte que conseguimos atingir do cosmos. Este nascimento acontece essencialmente no coração que permitiu advento e tornou-se disponível para amar o irmão que vê, sabendo que isto é infinitamente mais difícil do que se compadecer por aqueles que vê nos noticiários.

Se Jesus historicamente nascesse este Natal, certamente morreria náufrago num barco de refugiados ou no meio de exercícios nucleares, não por indisponibilidade de Maria e José, mas porque acharíamos que nada havíamos tido a ver com eles (técnica de estalajadeiro).

Talvez, a construção de um presépio é aquilo que de mais próximo nos é dado experimentar na Criação. É o aplanarmos caminhos, educar montes e colinas. Vertermos numas palhinhas um Menino que vem do céu e evidenciar os caminhos onde o dia-a-dia, o nosso quotidiano acontece, onde a antropologia e a etnografia assumem o que de melhor – na representatividade das figuras – podemos ofertar. Então entendemos que a Terra é o lugar do céu – já não existem barreiras – e que nós somos habitantes da liberdade.

Bom Advento, para um feliz Natal

Nuno Sousa

4º Ano