A religião, só por si, é uma grande expressão de cultura a vários níveis. Dela brotaram as mais variadas fontes de cultura, através da arte sacra, da música, do ensino e demais vertentes fundadas ou intervencionadas pela Igreja.

De facto, ao longo da sua história, a Igreja teve muitas páginas negras e das quais não se deve orgulhar, no entanto, foi uma grande impulsionadora da evolução intelectual da humanidade. Se olharmos, por exemplo, para a história da filosofia, o ramo que estuda o pensamento humano, na História, concluímos que muitos dos grandes nomes da corrente filosófica eram cristãos, como por exemplo, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho… Ambos os termos estão, total e eternamente ligados, portanto, não se pode falar de cultura sem considerar a religião, essencialmente, pelo motivo de que toda a religião, antiga ou moderna, está determinada por um conjunto de condicionantes sociais, económicas, políticas, emocionais, que num tempo e espaço concretos incidiram sobre o ser humano, o que revela como cada religião é inseparável da tradição cultural característica de determinada região.

Um exemplo concreto do motivo apresentado é a cultura dos Açores: é impossível falar-se de cultura açoriana sem mencionar as festas do Divino Espírito Santo ou a festa em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em São Miguel.

O povo açoriano, por vários motivos, nomeadamente, catástrofes naturais, possuiu sempre uma grande vertente religiosa, em parte, fruto do medo e angústias que se viveram em outros tempos, e que levaram à necessidade de apelar para o auxílio do sobrenatural.

Independentemente de qualquer juízo que se possa fazer acerca da Igreja, sendo este bom ou mau, existe um dado que surge com toda a sua evidência: a religião faz parte da cultura humana.

Lluís Duch diz-nos o seguinte: “Toda a religião expressa-se culturalmente e toda a cultura tem dimensões religiosas.”

No fundo, o que este frade e antropólogo espanhol nos quer dizer é que religião e cultura convergem uma na outra, uma vez que, mutuamente, se necessitam e auto implicam.

O mundo em que  vivemos não é mais como aquele onde viveram os nossos antepassados, os nossos avós, as gerações que sempre nasceram e se criaram cercados dos símbolos, dos sinais e das afirmações da fé cristã e, essencialmente, católica.

Hoje, vivemos num mundo onde a Igreja desempenha, muitas vezes, o papel de uma instituição que apenas serve para questões meramente de cariz social – casar/ batizar os filhos para não se ser motivo de comentários pela sociedade ou até para poder fazer uma grande boda – do que propriamente por questões de fé e adoração a Deus.

Também em outros tempos, a figura representativa da Igreja numa localidade – o padre – era visto como um homem culto e portador de conhecimento acima da média ou pelo menos acima do grau normal dos habitantes das suas paróquias. Nos dias de hoje, essa ideia está desvanecida e em certa parte com a sua razão, uma vez que, cada vez mais vemos um grande aumento da percentagem de universitários ou pessoas com ensino profissional, facto que aumenta o nível de conhecimentos, cultura e espírito crítico face às gerações antepassadas. A fraca preparação dos sacerdotes também é um facto que nos deve inquietar a todos.

Mas isto para dizer que muitas coisas mudaram com o passar dos tempos e a religião foi perdendo, fortemente, a importância e a exclusividade que possuía na sociedade.

O mesmo acontece com a cultura. Olhemos para os jovens que hoje se formam nas escolas portuguesas e pensemos na cultura que estes jovens possuem. A própria sociedade está de tal maneira ridicularizada com reality shows e ideais anti culturais e anti igreja que não me espanta, de facto, o caminho que os jovens estão a tomar e a decadência cultural e religiosa que Portugal está a atravessar.

A cultura faz-se de muitas formas e o próprio termo é bastante polissémico, daí que é difícil caraterizá-lo clara e objetivamente, mas na sua definição será sempre impossível dissipar a religião. Diria até que é o mesmo que estar um filho a fazer a sua biografia e não falar dos seus pais.

Podemos concluir, em resposta ao título deste artigo, que, embora não sendo a única, a Igreja é, com toda a certeza, mãe da Cultura, é uma das bases do conhecimento e da intelectualização humana.

“O saber nunca ocupou lugar”… Façamos da nossa vida um mar de cultura!

Gonçalo Miguel da Silva Brum

1º Ano