Na maior parte das vezes, baseamos a nossa caminhada quaresmal num itinerário que tem como ponto de chegada o sepulcro vazio. Percorrendo com Cristo todas as etapas: passando pelo Pretório, chegando ao Gólgota e alcançando, finalmente, a manhã da Ressurreição, vamos penetrando no mistério da sua doação. Fazemos o propósito de ir aperfeiçoando o nosso caminhar durante todo o percurso rumo ao Calvário, para com Ele chegarmos também ao grande dia de Páscoa. Sendo a vida de Jesus uma entrega permanente ao Amor, talvez possamos percorrer o caminho da Quaresma haurindo todas as forças na vitória de Jesus face à morte, de certa forma o «caminho inverso» do percurso habitual. 

Ao bebermos do mistério da Ressurreição, absorvemos dele todas as forças necessárias para iniciar esta caminhada de amor, doação e configuração com o Senhor. Na ditosa manhã de Páscoa, encontram-se todas as razões para agarrarmos essa oportunidade de, mais uma vez, convertermos os nossos corações e limarmos os nossos vértices. E é aqui que começa a nossa caminhada «inversa».

O sepulcro está vazio. Entramos, rolamos a pedra, sentamo-nos junto do sudário e, neste silencioso e vazio lugar, aproveitando o ambiente de introspeção, imergimos no mais profundo do nosso ser, e,num exame de consciência, deparamo-nos com as nossas debilidades. Encontramos momentos em que, nos nossos pensamentos e ações, tudo esteve presente, exceto Deus. No meio de tanta alegria, paz, e caridade, vamos encontrando a ferrugem que impediu tantas vezes que as portas do amor se escancarassem aos nossos irmãos: atitudes de orgulho, desejo constante de ter razão, incapacidade de perdoar, tudo o que nos impede de ter uma vida plena. Tantas mazelas da nossa vida que surgem flutuando no nosso pensamento, mas que deixam uma vontade de aperfeiçoamento e levam-nos a criar propósitos e intenções de mudança. Eis o tempo propício!

É a hora de rolar de novo a pedra. A luz que vem de fora abre-nos os olhos da esperança e impele-nos para a ação. Subindo ao Calvário e ao patíbulo da cruz, entregamos todos estes propósitos e intenções nas mãos de Deus. Pedindo-Lhe ajuda, e, conscientes de que uma parte da missão está nas nossas mãos, apresentamo-nos inteiramente diante Dele de espírito aberto. Ele sabe o quanto nos esforçamos por mudar e nós confiamos e acreditamos que com Ele, por Ele e n’Ele tudo será mais fácil, pois o seu «jugo é suave». Abraçados à cruz, agarremos toda a nossa vida, com todos os momentos de graça e alegria, de pecado e queda. Conscientes daquilo que somos e com uma enorme vontade de transformação, é hora de seguirmos viagem rumo à vida de Jesus.

Ao percorrermos toda esta via com a cruz da nossa existência aos ombros, encontramos o Cirene e a Verónica, que vêm ao nosso encontro. É nestes encontros que tomamos consciência de que, amparados uns pelos outros, tudo se torna mais simples. Esta caminhada capacita-nos e faz-nos compreender aqueles três anos em que Jesus andou de terra em terra, anunciando o Reino de Deus e pregando o Evangelho. Só assim conseguimos chegar à vida de Jesus. E o que é a vida de Jesus senão uma entrega ao serviço dos mais fracos e dos mais necessitados?

Que este seja o nosso propósito quaresmal e que este se traduza em atos concretos. Olhemos à nossa volta, dentro do nosso meio, e reconheçamos o rosto de Cristo naqueles que gritam em silêncio pelo nosso nome. Estejamos disponíveis para a escuta e preparados para servir aqueles que apelam para o nosso socorro. «Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.» (Mt 25,40).

Leonel Vieira

3º Ano