O Seminário Episcopal de Angra é a sede da nova Escola Diocesana de Formação, uma iniciativa que pretende devolver a esta casa, com mais de 160 anos de história, a formação agora aberta a todo o Povo de Deus, ao diálogo com a sociedade e aos desafios culturais do presente

“Não é indiferente que esta Escola (Escola Diocesana de Formação-EDF) tenha como sede o Seminário Episcopal de Angra”, afirmou o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, na sessão pública que assinalou o nascimento da nova Escola e que decorreu este sábado em Angra.
Criado a 9 de novembro de 1862, por D. Frei Estêvão de Jesus Maria, o Seminário desempenhou durante muitas décadas um papel que ultrapassou a formação eclesiástica. Foi também uma das poucas possibilidades de formação pós-secundária existentes nos Açores, contribuindo para a formação de várias gerações da intelectualidade e das elites dirigentes açorianas.
Mais de um século e meio depois, esta casa de formação abre-se a uma nova etapa da sua história. Mantendo a sua missão na formação de sacerdotes e diáconos, o Seminário passa a acolher também uma iniciativa destinada a todo o Povo de Deus.
Para D. Armando Esteves Domingues, esta abertura não significa abandonar a identidade do Seminário, mas aprofundá-la.
“As instituições permanecem vivas quando sabem guardar uma memória e, ao mesmo tempo, reconhecer novos futuros”, afirmou. Uma casa de formação sacerdotal torna-se, assim, também “casa de formação de todo o Povo de Deus”.
“Não procuramos recuperar tempos de glória. Procuramos, simplesmente, que o Seminário continue a servir a glória de Deus e o bem das pessoas”, acrescentou.
A Escola Diocesana de Formação nasce para responder a uma necessidade identificada nos organismos de participação da Diocese, nomeadamente no Conselho Diocesano de Pastoral e no Conselho Presbiteral: proporcionar uma formação mais profunda, continuada e adequada aos desafios do tempo presente.
A iniciativa inscreve-se no horizonte pastoral da Diocese de Angra de “passar à outra margem”, expressão que traduz a vontade de atravessar fronteiras, reconhecer novos desafios, abrir novos caminhos e promover as pessoas através da formação, da capacitação, do diálogo e da cultura.
O objetivo não é apenas adquirir novas competências ou acompanhar as mudanças tecnológicas e sociais. A Escola pretende contribuir para a formação de pessoas “interiormente sólidas, intelectualmente preparadas, espiritualmente maduras e capazes de discernir”, explicou o bispo.
A inteligência artificial, a transformação digital, as novas formas de comunicação, as alterações no mundo do trabalho, as mudanças culturais e demográficas e a pluralidade de visões do mundo colocam novas perguntas à sociedade e também à Igreja.
“Que tipo de pessoa queremos formar para o mundo que está a nascer?”, questionou D. Armando, defendendo que a resposta não pode passar nem por uma fuga ao passado nem por uma adesão acrítica a todas as novidades, mas pela capacidade de discernir.
Formação para todo o Povo de Deus
Embora dê particular atenção à formação dos leigos, a Escola não pretende ser uma estrutura exclusivamente dirigida a este grupo. Quer ser uma escola para todo o Povo de Deus, promovendo o encontro entre diferentes vocações, ministérios e sensibilidades.
O projeto inclui um Curso Básico de Teologia, uma formação destinada aos Ministérios Laicais e um Curso Livre, permitindo a cada pessoa construir, com liberdade e responsabilidade, o seu próprio percurso formativo.
A Escola pretende ainda contribuir para a formação permanente do clero e para uma maior articulação entre as diferentes iniciativas formativas já existentes na Diocese.
O Instituto de Cultura Católica, os Secretariados Diocesanos, as Escolas de Ouvidoria, os Movimentos e outras instituições continuarão a desenvolver as suas missões. A nova Escola procura sobretudo articular e aprofundar estas experiências, contribuindo para uma verdadeira cultura de formação permanente.

Na apresentação da matriz do projeto, o diretor da Escola Diocesana de Formação, padre Nelson Pereira, que é também agora vice-reitor do Seminário, que este ano vai contar com quatro novos alunos no Porto (que se juntam aos três que já lá estão), colocou no centro a relação entre fé e pensamento.
Recorrendo às expressões de Santo Agostinho — “Fides, nisi cogitatur, nulla est” — e de Santo Anselmo de Cantuária — “Fides quaerens intellectum” — sublinhou que a fé não pode ser entendida como uma adesão cega ou ingénua, mas exige o exercício vivo da inteligência.
A mesma relação entre fé e razão foi retomada por São João Paulo II na encíclica Fides et Ratio, através da conhecida imagem das duas “asas” pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade.
Para o padre Nelson Pereira, a Escola deve ser uma resposta a esta necessidade de pensar a fé e compreender o mundo. O seu propósito ultrapassa, por isso, as fronteiras da comunidade crente.
Estudar e compreender o cristianismo significa também compreender uma parte importante da história cultural do Ocidente, presente na arte, na literatura, no direito, na filosofia e na ética.
A Escola pretende, por isso, ser um espaço aberto à sociedade, acolhendo também não crentes, promovendo a escuta ecuménica e o encontro com outras tradições religiosas.
Na perspetiva apresentada pelo bispo diocesano, de resto, a nova Escola deverá ser também um lugar de encontro entre diferentes saberes.
A Igreja precisa de leigos teologicamente preparados e capazes de dialogar com a cultura contemporânea, colocando as suas competências profissionais ao serviço da missão. Teólogos, biblistas, especialistas em Doutrina Social da Igreja e Direito Canónico, educadores, comunicadores, juristas, economistas, cientistas e profissionais das novas tecnologias podem contribuir para uma melhor compreensão da realidade.
“Não para que a Igreja tenha especialistas. Precisamos deles para que a Igreja possa discernir melhor e servir melhor”, afirmou D. Armando.
A formação é apresentada, assim, como uma condição para uma Igreja mais sinodal, entendida não como uma simples metodologia de reuniões, mas como uma forma de caminhar juntos, reconhecendo que ninguém possui sozinho todo o conhecimento necessário para responder aos desafios do presente.

Frederico Lourenço aborda São Paulo em lição de sapiência
A sessão de abertura contou ainda com uma intervenção de Frederico Lourenço, dedicada a “São Paulo, Apóstolo e Poeta”, que trouxe para o centro da reflexão a necessidade de interpretar os textos paulinos no seu contexto histórico e cultural.
O escritor e tradutor da Bíblia chamou a atenção para os riscos de uma leitura meramente literal de São Paulo, nomeadamente em passagens relacionadas com as mulheres, a escravidão, a sexualidade e determinadas questões políticas e sociais.
Ao mesmo tempo, destacou a dimensão profundamente inovadora da mensagem paulina na Igreja nascente, sobretudo na afirmação de que todos são “um em Cristo”. Para Paulo, explicou, os seres humanos não se repartem diante de Deus por categorias: todos são filhos de Deus e, por isso, irmãos.
A leitura de São Paulo exige, deste modo, um esforço de interpretação que permita compreender simultaneamente o contexto em que os textos foram escritos e a sua importância na história do cristianismo.
Frederico Lourenço destacou ainda a centralidade do amor na mensagem paulina. Fé, esperança e amor (caridade) – as três virtudes teologais – sintetizam uma dimensão essencial do pensamento do apóstolo, com a caridade, o ágape, a ocupar um lugar central.
No encerramento da sua intervenção, D. Armando Esteves Domingues apresentou aquela que gostaria que fosse a identidade mais profunda da nova Escola: um “laboratório de pensamento, de discernimento e de esperança”.
Um lugar onde a fé possa dialogar com a cultura e a teologia com a ciência; onde jovens e mais velhos, sacerdotes e leigos, diferentes sensibilidades e experiências possam encontrar-se e aprender uns com os outros.
Uma Escola que não tenha medo das perguntas. Porque, afirmou o bispo, “uma fé que não suporta perguntas torna-se frágil” e “uma cultura que deixa de fazer perguntas perde a capacidade de se renovar”.







