Ano que se pode dizer de transição do fim de uma década para o início de uma nova, 2020 tem revelado grandes surpresas.

Iniciou-se o ano civil já com o conhecimento desta notícia que atualmente está avassalar o mundo inteiro; são inúmeras as notícias todos os dias de histórias menos felizes para a humanidade. No entanto, ainda foi possível que por cá, nos Açores, se vivessem e celebrassem alguns dos momentos mais esperados, como, por exemplo, as festividades do dia dos amigos, das amigas, compadres e comadres; festejou-se ainda por todo o arquipélago o tão esperado e vivido carnaval, tudo ainda sem grandes preocupações e sem pensarmos que alguma vez pudéssemos viver o que se está a viver nesta altura.

Iniciámos uma normal Quaresma após a imposição das cinzas, dia que dá início a este tempo forte com um gesto que nos faz relembrar que «somos pó e ao pó da terra voltaremos» (Gn 3, 19); tempo de penitência, arrependimento e de uma oração mais intensa. Momentos fortes e marcantes, no entanto, momentos que estamos habituados a viver de uma forma que, até se pode dizer, de um modo já habitual na vida de um cristão.

Infelizmente, de uma forma tão inesperada, fomos surpreendidos, até mesmo na nossa dispersão geográfica, por um vírus avassalador, que era impensável que tomasse as proporções e dimensões a que chegou. O nosso isolamento geográfico, do qual somos fruto, por habitarmos em belíssimas ilhas formadas por vulcões no meio de um imenso oceano, não nos preservou desta provação. Tudo aquilo a que estávamos habituados a viver, já de uma forma rotineira, tudo parou, tudo se alterou, e jamais será o mesmo. Lojas fechadas, restaurantes fechados, jardins vazios, ruas vazias, o medo apoderou-se das pessoas, jamais se poderia pensar que entrar em contacto com alguém fosse algo tão temível, algo que era tão comum entre o ser humano tornou-se proibido. Foi-se o abraço, foi-se o beijo, foi-se o convívio social.

E na Igreja não foi diferente, fecharam-se as igrejas, o culto comunitário foi suspenso, fomos impossibilitados de viver alguns sacramentos da forma habitual. Tudo mudou, até mesmo na Igreja, no entanto, adotaram-se numerosas formas de se continuar a viver a Igreja, que não é um templo, mas que é cada um de nós, impossibilitados de estarmos juntos a viver a mesma fé que nos une. Fomos convidados todos, no seio da casa de cada um, a vivermos esta Igreja que somos, juntos em família, em oração uns pelos outros. Foram surgindo inúmeras formas de vivermos a nossa fé durante a Quaresma. Alguns sacerdotes celebram a Santa Missa de forma diferente, transmitindo-as através das redes sociais; realizaram vias-sacras, recitam o santo rosário, outros através do silêncio, da oração contante por aqueles que mais agonizam neste difícil momento. Tudo para que chegue a todo o povo de Deus a mensagem, a palavra que o Pai nos quer transmitir a cada dia.

Chegou o Domingo de Ramos, momento que nos lembra a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, como nos é apresentado em cada um dos quatro evangelhos. No entanto, este ano, mais um momento vivido de forma diferente. Impossibilitados de vivermos este grande dia, surgiu a ideia imensamente divulgada nas redes sociais de se construir cruzes ornamentadas com ramos para embelezarmos as nossas casas, para que esse pequeno gesto marcasse esse grande dia, e mais tarde, no Sábado de Aleluia, com flores, para que marcassem a ressurreição de Jesus.

Iniciada a grande Semana, a Semana Santa, aquela que é a mais esperada por todo o povo cristão, continuávamos da mesma maneira, impossibilitados de estarmos todos juntos. Foi então que as redes sociais, rádios públicas, e até mesmo alguns canais televisivos se encheram de momentos especiais, deram-nos o acesso, de múltiplas formas, a cada celebração própria deste tempo, o chamado Tríduo Pascal. Foram numerosas as celebrações às quais pudemos aceder, para podermos, de forma diferente, mas de um boa forma, vivermos este tempo de graça.

«Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito…» (Mt 28, 6), foram estas a principais palavras de destaque nestes dias grandes em toda a Igreja Católica. Apesar de tudo, de tudo ser de forma diferente este ano, Cristo ressuscitou da mesma forma, tudo se cumpriu como ele havia dito, Cristo entregou-se, sofreu, e morreu, mas ressuscitou para nossa salvação, pela salvação de cada um de nós. Sejamos todos como Cristo, novas criaturas, ressuscitados pelo amor, pelo amor ao próximo.

Não sabemos o futuro, nem quando poderemos voltar a estar todos juntos, tenhamos força e fé naquele que em tudo se entregou por nós. Celebrámos a grande Páscoa do Senhor, mas com esta celebração iniciámos uma nova caminhada, caminhada esta de 50 dias rumo ao Pentecostes, à vinda do Espírito Santo, sobre nós, o dia em que o Espírito Santo habitará em nós, para que sejamos verdadeiros convertidos como os discípulos foram, crentes de que realmente Cristo ressuscitou dos mortos e de que vive em nós.

Que saibamos viver este momento de tribulação da melhor forma, não longe de Deus por não frequentarmos um templo, mas por sermos conscientes de que ele está em cada um de nós, e que sejamos esperançosos de que muito em breve possamos estar todos juntos a celebrar este Cristo, que é verdadeiro Amor. Que sonhemos com aquele abraço, aquele beijo de que temos tantas saudades de receber daqueles que amamos realmente e não podemos ter presentes neste momento.

Tenhamos também sempre presentes estas palavras do Papa Francisco ditas no Sábado Santo, quando da Vigília Pascal celebrada no Vaticano: «Convosco, Senhor, seremos provados; mas não turvados. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque convosco a cruz desagua na ressurreição, porque Vós estais connosco na escuridão das nossas noites: sois certeza nas nossas incertezas, Palavra nos nossos silêncios e nada poderá jamais roubar-nos o amor que nutris por nós.».

 

André Mota

1º Ano