Estamos a iniciar o ano lectivo neste Seminário Maior. É o começar de um novo ano que se apresenta como uma nova caminhada.

Certamente que o fazemos cheios de entusiasmo e de esperança. O nosso propósito é a descoberta e a consolidação do chamamento de Jesus Cristo dirigido a vós jovens que com generosidade quereis responder a este apelo e ajudados pela Equipa Formadora e pelos professores e outras pessoas que aqui prestam o seu serviço.

Quero partilhar da vossa alegria e comprometo-me convosco nesta etapa importante das vossas vidas.

Tendes no vosso horizonte a vocação sacerdotal. Contemplando o rosto de Cristo, fixando o vosso olhar no Seu olhar, discernindo a linguagem terna e amorosa com que vos interpela, procurai caminhar decididamente na resposta a dar-Lhe. Por isso, dai tempo à oração comunitária e pessoal, à meditação e à escuta da Palavra de Deus, deixai-vos orientar pelos vossos superiores e tende sempre muito presente o afecto maternal de Nossa Senhora que como Mãe vos ajuda a dar o sim pleno e total.

Tal como refere a Pastores Dabo Vobis de S. João Paulo II, há uma fisionomia permanente do presbítero que não muda. Isto é, configurado a Jesus Cristo, aquele que é chamado ao sacerdócio «deverá assemelhar-se a Cristo». Concretamente, «quando vivia sobre a terra, Jesus ofereceu em Si mesmo o rosto definitivo do presbítero, realizando um sacerdócio ministerial do qual os apóstolos foram os primeiros a ser investidos; aquele é destinado a perdurar, a reproduzir-se incessantemente em todos os períodos da história».

Assim, «o presbítero do terceiro milénio será, neste sentido, o continuador dos padres que, nos precedentes milénios, animaram a vida da Igreja». Conclui-se que «também no ano dois mil, a vocação sacerdotal continuará a ser o chamamento a viver o único e permanente sacerdócio de Cristo” (nº 5).

Mas também é verdade que estamos a viver um tempo novo, em contexto cultural que traz novos desafios ao ser do presbítero. Como tal, «é igualmente certo que a vida e o ministério do sacerdote se deve “adaptar a cada época e a cada ambiente de vida (…) Da nossa parte, devemos, por isso, procurar abrir-nos o mais possível à superior iluminação do Espírito Santo, para descobrir as orientações da sociedade contemporânea, reconhecer as necessidades espirituais mais profundas, determinar as tarefas concretas mais importantes, os métodos pastorais a adoptar, e, assim, responder de modo adequado às expectativas humanas” (nº 5).

Tendo em conta esta exigência, importa prestar o máximo de atenção à Sagrada Escritura, aprofundar a doutrina conciliar do Vaticano II, valorizar o magistério dos Papas que implementaram o Concilio Vaticano II e, através das diversas ciências, conhecer bem o mundo que em que vivemos.

Estais a preparar-vos para um dia servirdes a Igreja em tempos novos com exigências novas. É algo de aliciante e maravilhoso mas a exigir muito da vossa preparação e da formação da vossa personalidade.

Tendes diante de vós o desafio da evangelização. O Papa Francisco tem-se referido muitas vezes a esta singular missão da Igreja que tem no sacerdote o seu primeiro protagonista.

Na Exortação Pos – sinodal Evangelii Gaudium, diz o seguinte: «a Igreja “em saída” é a comunidade de discípulos missionários que “primeireiam”, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam» (nº 24). Sim somos convidados à alegria. Mas para vivermos a alegria profunda que a vocação sacerdotal nos oferece devemos cultivá-la nas exigências próprias do chamamento que Jesus Cristo nos dirige.

Seguindo o testemunho do Senhor que Se envolveu e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos discípulos: “Sereis felizes se o puserdes em prática” (Jo 13, 17) também ela é chamada a envolver-se.

Continua o Papa, «com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo».

Deparamo-nos com a imagem cheia de sentido e de responsabilidade que diz: «os evangelizadores contraem assim o “cheiro das ovelhas”, e estas escutam a sua voz».

Mas é também tarefa da Igreja «acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam». Porque conhece as longas esperas e a suportação apostólica, a evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. «Fiel ao dom do Senhor, sabe também “frutificar”» (nº 24).

Por último, a comunidade cristã sabe festejar. Sim porque a evangelização culmina sempre em festa.

Já S. João Paulo II nos fala da Nova Evangelização e referindo-se aos presbíteros diz que estes devem ser pessoas a viverem e a fomentarem a comunhão e a corresponsabilidade, promovendo os diversos ministérios e despertando todos os cristãos para a participação na vida da comunidade cristã(Cfr.PdV, 18).

Eis o horizonte para o qual devemos caminhar e as exigências da missão que reclamam uma formação adequada e ajustada.

Como afirmam os documentos da Igreja, o Seminário é uma comunidade educativa em caminhada cuja identidade profunda é a de ser, a seu modo, «uma continuação na Igreja da mesma comunidade apostólica reunida à volta de Jesus, escutando a sua palavra, caminhando para a experiência da Páscoa, esperando o dom do Espírito para a missão» (PdV, 60). Daí a atenção a dar á formação humana, espiritual, intelectual e pastoral de modo a um desenvolvimento harmónico da personalidade do futuro presbítero.

Termino, implorando de Nossa Senhora, Mãe e Rainha dos Açores que a todos os membros desta comunidade abençoe e acompanhe com a sua ternura materna para cada um possa dizer o seu sim generoso a Jesus Cristo.

Amen.

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores

19 Set 2016