Ei, pra onde vais?

Alguém me pergunta interiormente…

Sorrio apenas. Sorrio com os olhos marotos dum olhar oblíquo, como se este alguém fosse um estranho conhecido a caminhar comigo… sorrio como quem não liga à pergunta ou, se calhar, como quem tem a livre pachorra para não responder, pois, se eu respondesse, seria o único a ouvir. Mas sabe bem ouvir esta pergunta. Sabe bem, porque a sinto, e não tenho pressa para responder… apenas sorrio. Sorrio suavemente, com um dos cantos da boca, e sigo em frente, caminhando desajeitadamente, ziguezagueando, de braços abertos, sobre os pós do caminho.

Apetece ser assim, e pronto! Esta coisa de ser sem jeito até que tem o seu jeito de ser.

Quando se tem a certeza de que a direção está certa, o que importa é sentir o caminho… mas, mais do que um caminho estreito de terra batida, que alterna o seu chão com as gastas pedras da calçada das aldeias. São aldeias que se amontoam no aqui e ali da paisagem, esquecidas no tempo pelo êxodo dos ex-rurais e até já ex-viventes do “mundo das coisas físicas”. Mais do que um caminho já criado, onde encontramos aldeias imortais, que ficam a contar histórias aos que ainda por cá passam… há um caminho interior que vamos construindo com vivências e aprendizagens, sonhos e concretizações.

Num cenário imaginário de tonalidade sépia, faço de figurante que atravessa a aldeia. Não sei o seu nome. Aliás, nem sei bem onde estou. Não adianta ligar o GPS. Sabes, amigo, as bandas esquecidas não têm rede com esta coisa da globalização… E, ao que me parece, esta meia dúzia de gatos-pingados está-se a marimbar para isso. Vivem à mercê do Céu e do tempo, e isso parece bastar.

Esta é uma aldeia igual às outras que ficaram para trás e, supostamente, igual à que fica do outro lado do rio, a seguir à calvária montanha. Depois de atravessar três-quartos-de-hora de mata fresca, com algumas nascentes a meio, que servem de taberna-de-bebe-e-anda, vejo, a dobrar o canto da ruela, em direção ao prado, um sonolento pastor que guia uma dúzia de cabras que dalindalandeiam chocalhos de lata, uns cabritos que pula-pulam muros de pedra, tentando apanhar com os beiços as folhas que ainda restam dos silvados e, atrasado, lá vem um velhíssimo bode pesaroso, com uns cornos de quilo e meio, já mais pra lá do que pra cá, arrastando o “aposentado” que um dia deu criaturas ao prado. Mais à frente, sentado na soleira da porta, reacendendo o apagado tabaco, enrolado numa mortalha de folha de milho, um velho homem que me diz as horas com um “haja-saúde” de aceno de cabeça. Ao lado, outra velha casa esguia, com uma janela de quatro quartas, de onde sai uma luz de luto e o rosto de uma antiga mulher, semiencoberto pela cortina desvanecida, que olha para o infinito, como se estivesse à espera de alguém que já espera por ela…

A uns bons metros à frente, ouço, finalmente, sons de vida humana… À velocidade da luz, imitando cavaleiros de batalha, um grupo de crianças, vindas de uma outra rua mais larga, correm outeiro abaixo, quebrando o silêncio da aldeia. Até o pobre cachorro, que dormitava no meio da rua, viu-se obrigado a fugir, sonambulado, para não ser atropelado pelos putos…

Descida abaixo, distingo a torre da igreja sobre os telhados das casas. Cruzo-me com uma anónima que acarta meia dúzia de achas de lenha de pinheiro. Parece que fala sozinha… mas não. Três passos abaixo, vejo que põe os enredos em dia com outra da sua idade, que está sentada do lado de lá da porta… falam do mesmo que falaram ontem e antes de ontem… pois nesta terra, nada há de novo. Sorriem-me e dizem “Queres água? É fresca! Olha que não é água do rio!”. Aceito. Aceito, não por não ter água na mochila… mas para poder descansar os pés, já embolhados da caminhada, e conhecer um pouco da realidade passada, tão presente quanto infinita…

Aproveito para comer um punhado de morangos e cerejas, oferecidas na primeira aldeia da manhã, que servirão para dar energia ao resto do desfiladeiro de calçada que me leva até não sei onde… mas o caminho é este! E tenho a certeza de que o caminho é este porque as mulheres me desejaram “bom caminho”. Nunca se deseja “bom caminho” a quem caminha na direção errada.

É tempo de agradecer o chão onde me sentei, a água que me refrescou e a conversa que me enriqueceu… É tempo de me pôr a andar. “O caminho faz-se andado” diz-me Maria Dolores, com o seu molho de lenha à cabeça, também ela com pressa de chegar ao seu subido destino. Neste mundo ninguém é anónimo. Posso é não saber o seu nome!

E, depois do cansativo outeiro, finalmente, chão plano. Acho-me num pequeno largo, com um chafariz de cruzeiro ao centro, que dá as boas-vindas à contemplação da bonita igreja de estilo romano. É um cenário pitoresco como as ilustrações dos manuais da primária, mas, desta vez, eu estou lá. Aproximo-me do chafariz para observar de perto o cruzeiro que talha momentos da Paixão. Por detrás do pilar, vejo que está alguém… uma jovem, linda e graciosa, de olhar tímido, que disfarça o embaraço da minha presença com sucessivas miradas para o relógio, como que estivesse à espera de alguém.

Um poço é sempre ponto de encontro… Lembro-me do encontro de Jesus com a Samaritana… mas nada tem que ver com o momento. Não sou Jesus, pois sou pecador, ela não tem cântaro nas mãos para incarnar a Samaritana (e não estávamos na Samaria, pois aqui, os naturais de cá, recebem bem os peregrinos de além-fronteiras).

Mas, o que faz aqui, sozinha, a estas horas da tarde, uma jovem tão bela?

E, de relâmpago, por detrás da igreja, surgem os cavaleiros traquinas, os tais putos que eu havia visto meia hora antes. Aproximaram-se da jovem e cumprimentaram-na. Ela, tão docemente, recebia nos seus braços cada uma das crianças, com um sorriso de mãe. A formosa jovem tinha o dom de transformar cavaleiros perigosos em anjinhos afáveis. “Vamos, Senhora Catequista, está na hora da reza…” e dirigiam-se, de mãos dadas à Senhora Catequista, pulapulando de alegria, para o encontro semanal.

As crianças entram, mas ela fica à porta, à espera, olhando para o outeiro por onde eu havia descido… Será que espera por mais alguém? Nem mais… lá vem o obeso cavaleiro, que cavalga desastrosamente, resmungando, soluçosamente, o facto de ninguém o ter chamado e esperado por ele. Ela sorri-lhe, ternurosomente, com uma carícia na franja marrufada. E entram os dois…

É, sem dúvida, uma grande pastora da fé: deu por falta da ovelha sem ainda ter feito a chamada.

Dos encontros, levamos sempre uma mensagem, um exemplo, uma lição…

Para quem peregrina, os olhares de quem se cruza no nosso caminho falam e os gestos ensinam. No meio de tantas manifestações, os sinais envoltos na mais genuína simplicidade são aqueles que nos fazem parar, refletir e apaixonar… Três simples movimentos num só momento: a simples espera de três segundos, o olhar de confiança e o sorriso no acolhimento… A mais bela magia do encontro… esperar sem pressa, confiar sem duvidar, acolher sem se zangar… foi a atitude da jovem catequista no acolhimento da criança mais débil. Esperar, confiar e acolher…

Isto faz-me refletir que, no mundo, há muitas “crianças” débeis, esquecidas pelos outros, que vivem na azáfama rotineira e humanamente desgastante.

E eu, quem sou? Um esquecido? Ou sou um que se esquece do Outro?

A fé faz-me acreditar que há sempre alguém num poço à espera, para nos levar ao centro da nossa existência. Faz-me acreditar que há sempre um Jesus disfarçado de catequista que nos leva até Deus. Jesus que espera, que confia e acolhe sorrindo.

“O caminho faz-se andando”, já dizia Maria Dolores, lá em cima. E é verdade! E lá vou eu caminhando em direção ao rio, esperançoso para chegar à minha meta final: a Grande Aldeia do Apóstolo.

Jorge Pinheiro Sousa