• As jornadas de teologia que o Seminário vai promover- “Cristianismo e Cultura”- são um desafio à igreja e à sociedade açoriana em geral. O que se pretende com elas?

Esta iniciativa pretende promover o diálogo entre a Igreja e a sociedade contemporânea. Não há dúvida que o cristianismo tem uma importância fundamental na cultura europeia e particularmente nos Açores. Por outro lado, pretende-se promover a produção científica do Seminário e dar a conhecer à sociedade o que realmente se estuda e se pensa no seio desta Instituição e da Igreja. Finalmente, estas jornadas têm como objetivo o reconhecimento curricular por parte da Universidade Católica, um diálogo com vários anos. Daqui brotará uma revista periódica para os próximos tempos.

 

  • O seminário foi ao longo da sua história uma das vanguardas senão a vanguarda do pensamento sobre a fé, sobre a cultura e sobre a igreja nos Açores. A grande escola de formação, para além da instrução. A realização destas jornadas é retomar publicamente essa liderança no pensamento?

Seria ótimo que retomássemos a liderança, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. É necessário incentivar e promover aqueles que, com cursos de especialização, podem de facto ajudar a formar leigos e clero nos Açores. Já muito se fez no passado, mas perdeu-se em parte, porque não se registaram os conteúdos para a posterioridade. É necessário publicar, seja qual for o modelo. Por outro lado, sendo a única Instituição de Ensino Superior no seio da Igreja Açoriana, temos os instrumentos e os meios para concretizar este sonho.

 

  • O tema é todo um desafio: refletir sobre o cristianismo e a cultura num tempo em que parece que o povo cristão se sente ameaçado, humilhado?

O povo e a cultura cristã são constantemente atacados pelo laicismo europeu, por vezes muito agressivo. Não faltam autênticas deturpações históricas e filosóficas acerca do cristianismo e do seu efetivo contributo. Basta pensarmos nos romances históricos, tão em moda. Quase sempre a Igreja é deturpada na sua mensagem e na sua natureza. É um saco de boxe muito apetecível. Não é infrequente atribuir-lhe a causa de todos os males que acontecem na contemporaneidade. Uma autêntica delícia para muitos romancistas. As raízes cristãs da Europa são um facto! Hegel defendia que a História da Europa só pode ser entendida a partir de três espaços: o Parthenon (filosofia Grega), o Capitólio (Império Romano) e o Gólgota (Cristianismo). Por isso, o tema é aliciante, é um despertar para outras temáticas mais específicas.

 

  • Às vezes parece que somos uma minoria e até sentimos quase a obrigação de pedir desculpa por sermos cristãos. Como vê este problema?

A Irmã Guadalupe, das Missionárias do Verbo Divino, natural da Argentina, que trabalhou na Síria durante a guerra recente, afirma num seu testemunho que a perseguição não é só em Aleppo. Sofremos perseguições cruéis, mas muito subtis. Mina-se a família e ataca-se a vida! Aplaude-se no nosso parlamento as maiores atrocidades!

Penso que temos tido uma perseguição contínua que deixa raízes e fortalece os temores. Efetivamente, o laicismo iluminista trata-nos como menores de inteligência. Quando, na verdade, foi essa “maioridade” da razão que conduziu aos maiores flagelos da história recente, sem esquecer a questão ecológica. Por isso, há um longo caminho a percorrer para repor a verdade, que o cristianismo merece. Há que investir nesse conhecimento. Não podemos perder o entusiasmo. Na verdade, antes que o Estado assumisse as suas responsabilidades sociais ou na educação e na saúde, era a Igreja que nos valia. Pensemos na lista enorme de cientistas católicos, que os mais insignes estudos reconhecem. A Igreja é mestra de Cultura e Humanidade, por muito que se tente negar. Um património gigantesco que se deve valorizar e reconhecer.

 

  • Sente que há uma guerra religiosa no horizonte, ou mesmo já iniciada?

Não gostaria de falar em guerra. Esperemos que ela não nos atinja. Mas é verdade que os extremismos do lado de lá e de cá devem preocupar-nos. A islamização da Europa cristã deve-se à fraqueza da nossa vitalidade de fé, mais do que às iniciativas de fora. Só nos resta um caminho, que deve ser o da procura do diálogo e do entendimento, mas sempre no respeito pela verdade, sem relativismos. Contudo, a história ensina-nos como isso é tremendamente difícil. Mas não há outro modo. Senão, seremos piores que os nossos antepassados. As atitudes do Estado Islâmico fazem fazer figuras como o Trump e isso é verdadeiramente preocupante.

 

  • Como pode a Igreja acompanhar os dias e os tempos?

Penso que o Papa Francisco dá-nos um exemplo fantástico de diálogo com o mundo, pela sua simplicidade, capacidade de liderança, de atenção aos mais pobres. A Igreja pode e deve acompanhar em todos os campos, através da opção preferencial pelos pobres, e deve fazer essa mais valia onde ela está, na ciência, na política, na cultura, na ação social, no ensino…. Desde as artes nas suas mais variadas expressões até eventos que envolvem milhões, como as visitas papais, ou as Jornadas Mundiais da Juventude, as dimensões da própria Igreja são um meio extraordinário que supera qualquer fronteira, uma força extraordinária, difícil de explicar. Por isso, há que dar lugar ao Espírito Santo e não termos receio da novidade, mas isso exigirá sempre mais de nós.

 

  • Qual é hoje o maior desafio com que se deparam os cristãos?

Os cristãos têm de assumir o seu papel. Ser luz no mundo! Não podemos pensar que somos de menor idade, como tanto se propaga, escondendo-nos atrás da cortina. Esta é uma herança que o Iluminismo nos deixou e que é difícil de ultrapassar. Ser testemunha de Jesus Cristo exige muito da cada um de nós, sobretudo através do nosso exemplo. E não pensemos que não seremos perseguidos. O martírio é também um meio de anúncio. Estamos no mundo mas não somos do mundo. Sonhamos mais alto, e temos de ter os pés bem assentes na terra. Como evocava a Gaudium et Spes, “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração”

 

  • Que esperança podemos ter hoje para dar também aos nossos filhos?

Penso que o Papa Bento XVI responde formidavelmente a essa questão: “é na esperança que fomos salvos: diz São Paulo aos Romanos e a nós também (Rm 8,24). A «redenção», a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de facto. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente” (Bento XVI, Spe Salvi, 1).

A mensagem é perene, a esperança é a do Evangelho, da Boa Nova da Ressurreição, e será sempre essa que anunciaremos aos nossos filhos. Melhor será se toda humanidade nunca for esquecida. Por isso, reveste-se de maior urgência uma ecologia integral, que, segundo as palavras de Francisco, “sempre é possível desenvolver uma nova capacidade de sair de si mesmo rumo ao outro. Sem tal capacidade, não se reconhece às outras criaturas o seu valor, não se sente interesse em cuidar de algo para os outros, não se consegue impor limites para evitar o sofrimento ou a degradação do que nos rodeia (Francisco, Laudato Si, 208).

 

  • À força de sermos consumidores, telespectadores, utentes, vivemos uma certa miséria simbólica. Porque é o homem se distanciou de Deus e hoje temos uma sociedade cada vez mais afastada Dele?

As causas são variadas. A partir do Humanismo, o homem colocou-se no centro do pensamento e do mundo, afastando progressivamente o próprio Deus. A questão agudizou-se no Iluminismo e concretizou-se num materialismo, cada vez mais selvagem. Quando Niestzsche proclamou a morte de Deus, apenas expressou o que muitos dos seus contemporâneos pensavam e hoje se defende. Estas ideias tiveram consequências, e a Europa perdeu muito do sentido do religioso. Isso não aconteceu noutras civilizações. Pensemos na América do Sul, ou na Índia, onde o religioso é uma força sem paralelo. Preocupa-me que a globalização possa também fazer empobrecer estas culturas. Muitos homens pensam que são mais livres e superiores sem a noção de Deus. É um erro, porque Deus eleva a nossa humanidade a alturas que nem conseguimos sonhar. Falta o encontro com Ele! A imagem de um Deus distante e institucional não é mais que um ídolo, que não salva ninguém e que muitos afastam das suas vidas.

 

  • É um falhanço do homem ou da Igreja, que abriu mão de fornecer as interpretações?

De facto, tudo depende da imagem que se constrói acerca de Deus. Aí talvez a Igreja tenha alguma culpa. Nem sempre soubemos transmitir uma imagem autêntica de Deus. Perdemos muitas energias com uma argumentação apologética, jogando à defesa, quando deveríamos apostar numa mensagem positiva. Perdoem-me a ousadia, mas parece-me que o Ano Santo da Misericórdia nasceu com esse intuito. Mas também é verdade que o homem não procura. A sociedade light em que vivemos abafa o pensamento, atordoa consciências. Gastamos o tempo com o desnecessário. As verdadeiras questões deixam de fazer sentido quando se tem tudo. Só nos questionamos, quando as situações atingem o sentido da vida, como a morte e o sofrimento. Muitas vezes, já é tarde. Por isso, até a eutanásia ganha terreno.

 

  • Os homens não querem ouvir ou a Igreja já não tem voz?

Parece-me que há um problema de comunicação e linguagem. Comunicamos em diferentes ondas. Há que escutar mais de parte a parte. Mas também muita mensagem passa. Parece-me que é essencial optar por um modo de comunicar mais simples, menos teológico, sobretudo através de gestos. O segredo do Papa Francisco tem sido esse. Tem gestos comunicativos, evangélicos, que as pessoas percebem facilmente. Não desdizendo o que faziam os seus antecessores, parece-me que a linguagem é mais clara. O conteúdo, naturalmente, é sempre o mesmo. E isso é uma surpresa para muita gente.

 

  • De regresso ao tema das jornadas. Parece-me que há aqui, claramente, uma tentativa de restabelecimento de diálogo, de criação de pontes…

Certamente, porque estas questões entram em força nos meios açorianos. Há muita gente que repete o que vem de fora, pensando ser original nas críticas que faz à Igreja. Por isso, é nossa intenção quebrar preconceitos. Isso só se faz pelo diálogo. Estas Jornadas são uma gota de água nesta criação de pontes.

O tema será abordado em três sessões distintas. DESAFIOS E SOMBRAS DE UMA “CULTURA CRISTÃ, com as seguintes intervenções: Fé e Cultura: da ruptura ao diálogo – D. João Lavrador; Relatividade artístico-cultural e responsabilidade pastoral – Prof. José Carlos Seabra Pereira. PENSAR UM MUNDO EM MUDANÇA: Luz e sombras dos murmúrios da razão – Prof. José Luís Brandão da Luz; O Capitalismo e a Doutrina Social da Igreja – Prof. Nuno Miguel Ornelas Martins; RELATIVISMO CULTURAL E MORAL, Ética Cristã e ordem jurídica civil na sociedade pluralista. A vida e a liberdade em conflito? – P. Doutor Jorge Teixeira da Cunha; Moral cristã e pós-verdade – P. Doutor José Júlio Mendes Rocha. Deste modo, parte-se da temática na sua generalidade, depois abordaremos questões relativas à economia, filosofia e ética. Claro que o assunto não se esgota. Deixaremos para outras jornadas outras temáticas interessantes e pertinentes.

Debater estas questões é essencialmente procurar a verdade e a objetividade dos factos, descobrindo as riquezas, problemas e desafios inerentes ao cristianismo e à sociedade onde se insere.

 

  • Hoje o mundo está cheio de muros. Os Açores têm de certa forma muros. Quando há pobreza infantil, quando há doentes que não têm como ser tratados, quando há famílias desestruturadas. E há sobretudo abandono da igreja. Que palavra deve ter a igreja para estas pessoas? Como lhes poderemos passar o evangelho, como a palavra que Deus disse a Caim “tu podes”?

A Igreja tem ser mãe, que quebra muros, que vê as pessoas para além das situações e dos seus limites, que vê a humanidade para além das estruturas. Deve estar na frente da ação social, como um Hospital de Campanha. O Evangelho assim nos ensina e a Doutrina Social da Igreja constitui um meio formidável de atenção aos sinais dos tempos. E os tempos de hoje revelam-nos uma sociedade açoriana, repleta de vazios, de carências. A caridade não pode ser um parente pobre da ação pastoral, é aquilo que lhe dá sentido. É aquilo que permanece! Por outro lado, a Igreja tem de ser mais denunciadora das injustiças. Não se pode falar em pastoral, se não se dá a cada um o que é seu, e isso é justiça. O estado tem recursos e meios, apesar das crises, mas falta-lhe visão para as situações concretas, falta-lhe humanidade. A Igreja está em toda a parte, em cada paróquia e em cada fiel cristão. A caridade não pode ser toda institucionalizada, como se lê na Encíclica “Deus caritas est”. Caim também respondeu a Deus: “Acaso sou guarda do meu irmão?” Essa é a desculpa para a indiferença. Por isso, o papel da Igreja é alertar as consciências, para que cada um se sinta responsável da miséria do irmão, seja qual for o tipo. O Papa Francisco é muito claro: “A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf. 1 Jo 4, 10), e, por isso, ela sabe ir à frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a misericórdia infinita do Pai e a sua forca difusiva”.