Um sacerdote italiano publicou uma obra curiosamente chamada Felizmente há a Quaresma!

Nunca tive a oportunidade de ler a referida obra, apesar de a ter folheado numa livraria e de me ter despertado o interesse; no meio de outras leituras de necessidade mais urgente, ficou em lista de espera.

Independentemente da sua leitura ou não, qualquer cristão deveria exclamar: Felizmente há a Quaresma!

Pejorativamente, as aceções que surgem da Quaresma não correspondem de verdade ao que é este Tempo que Deus nos dá, e até se criam imagens negativas do mesmo. Sacrifício, penitência, jejum, abstinência, esmola, pautam este tempo que nos encaminha para a Páscoa do Senhor, mas sobretudo a nossa Páscoa. Todavia, para quem crê, os substantivos que frequentemente não geram apreço tornam-se um meio de ascese, purificação, contemplação e sobretudo de oração. A prática de caridade é uma das características deste tempo de deserto, que nos convida a olhar os irmãos, sobretudo os que sofrem na carne ou no espírito, e, à semelhança de Jesus, a diminuir-nos para que eles cresçam.

Crescem nas asperezas do caminho/ Pequenas flores brancas de esperança, reza a Igreja peregrina sobre a Terra, mas, mais que a letra, urge-nos neste deserto semear estas flores, esta esperança, para cada um e para os demais que se cruzam no nosso caminho. Transformemos os nossos desertos em desertos floridos. Parece antitético, mas se este deserto fosse convertido em jardim, a nossa missão seria camuflada, apaziguada e convidar-nos-ia ao deleite, ao repouso, algo que o Bom Pastor nos prometeu. Mas para já estamos no deserto, e as flores brancas alentam-nos para esta caminhada que ainda vai a meio. Ainda há tempo. Há sempre tempo para quem quer mudar a sua vida para algo melhor, e isto não nos devia soar a uma novidade, implica já um antigo começo, pois se assim o é, o nosso deserto ainda não foi regado e as flores não podem desabrochar.

A nossa esperança neste deserto que atravessamos é Cristo Jesus, só Ele nos torna capazes pelas obras e pelos frutos quaresmais para tomarmos parte com Ele. Só assim os nossos desertos florirão, quando os regarmos da Palavra de Deus, da Eucaristia e da Caridade. Quando isto acontecer, os nossos brados serão outros, novos, transformados, pois: Felizmente houve a Quaresma!

Mais do que brincar com os tempos verbais, só um espírito renovado pode tomar para si este último brado, contemplando simultaneamente o deserto atravessado, as flores desabrochadas e a futura jornada. Será coincidência que a Quaresma e a Primavera nos são dadas simultaneamente?  Penso que não.

Rui Soares

3º Ano