O Homem sempre se debruçou sobre diversas problemáticas. Talvez umas mais sérias que outras. Porém, há uma questão na Igreja que é tão debatida, que até parece um desequilíbrio afetivo: a virgindade de Maria. É daquelas coisas que muitos vivem obcecados, como quase se o cristianismo orbitasse não em volta de Jesus mas em volta do virginal hímen (ou não) da Mãe de Cristo.

Claro que não quero aqui parecer um apologeta doutrinal à moda antiga, mas apenas quero trazer um conjunto de reflexões e provocar outras questões em si, caro leitor, fruto da minha experiência pessoal em estudos e conversas…

Nos nossos dias, quando tocamos no tema da virgindade de Maria, surge-nos três posições:

-os defensores da divina virgindade;

-os que a negam;

– e outros dizem que “ela é virgem mas, somente, a nível moral, muito mais que a nível físico”.

E esta terceira posição é um pouco interessante e ao mesmo tempo perigosa. O que é, então, essa virgindade moral? Segundo os seus defensores, é uma virgindade a nível espiritual, que se traduz em fidelidade a Deus nas suas escolhas e nos seus pensamentos. Apreciar a virgindade de Maria, já neste parâmetro, é algo tão belo e tão apelativo para o cristão que contempla este “milagre”. Mas o que é ser “virgem moral mais que físicamente”? Não será apenas tentar sublinhar intenções e esquecer as verdadeiras ações práticas? O povo costuma dizer que “o Inferno, de boas intenções, está cheio…” Se sou virgem a nível moral, ou seja, se sou obediente, sério, casto (mesmo sendo casado e com filhos), isto não será o motor para uma virgindade externa/física? A virgindade moral é tão perfeita que depois acaba por se fechar em si, nem dando a possibilidade de extravasar de si, como a maioria das virtudes? Sinto que nesta expressão há novamente um desfazamento da realidade, que é composta pela nossa interioridade e exterioridade. Jesus criticou os fariseus do seu tempo por separarem a realidade: criticou-os por “fazerem por fazer”, pelo coração que está longe daquilo que o exterior reza. Mas Ele continua a criticar os fariseus dos nossos tempos, aqueles que continuam a separar realidades, como aqueles que só conta o espirito, só conta as intenções e esquece-se da ação. Relembrai o caso do Jovem Rico, que tinha intenções de ser perfeito, mas não era capaz de partilhar os seus bens (vede Marcos 10, 17-31; Mateus 19, 16-30;  Lucas 18, 18-30).

Chegou a hora de rabiscarmos mais um pouco sobre a ideia de negar a virgindade física de Maria, pelo menos até ao nascimento de Jesus.

Muitos negam a conceção milagrosa de Jesus no seio virginal de Maria. Agora, isto implica perguntar o seguinte: se Maria não é Virgem, quem é o Pai de Jesus? Se é o seu noivo, José, então porque é que, no Evangelho, aparece a rejeitar o seu noivado com Maria? Se o carpinteiro pobre ou alguém humano fecundou a pobre rapariga, como é que Jesus é Deus? Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente Homem? E estamos a chegar ao ponto de partida dos primeiros concílios ecumênicos da Igreja. Poucos são os que sabem que primeiro se afirmou que Jesus era Homem e Deus verdadeiro e, só mais tarde, surge o tema da virgindade de Maria. “No princípio era a Palavra (Jesus) e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus”, de João 1, 1, tem um debate muito mais antigo que o “sempre virgem- aeiparthenos” mariano dos primeiros séculos. Infelizmente, o ilustre pensador desconhecido, atualmente, começa ao contrário: debate a virgindade e, por sorte, chega ao essencial: às naturezas de Cristo.

Se Jesus fosse fruto de um amor entre dois humanos, como poderia ser Deus? Nos primeiros tempos da Igreja houve vários que tentaram responder a esta questão. Os arianos negavam que Jesus é Deus verdadeiro e os docetas acreditavam que Jesus, apenas, tinha tomado um corpo aparente- o seu nascimento, morte e ressurreição não foram verdadeiramente físicos. Ainda surge os adocionistas a darem uma resposta muito inteligente: Jesus é deus, porque Deus Pai o adotou. É, de facto, uma resposta genial para a nossa questão. Contudo, esta resposta obriga-nos a forjar a crença de que Jesus não partilha a mesma substância com o Pai criador e com o Espírito Santo. Sendo adotado, significa que está sujeito ao tempo, coisa que Deus não está, e significa que era um simples homem, e foi preciso o batismo ou a cruz para Deus o adotar, tornando-se Deus. Uma pessoa adotada por uma família nunca terá o sangue e as doenças hereditárias daquela família ( não que o sangue importe, mas apenas dei este exemplo para se entender melhor; ser adotado é estar ligado a uma família por laços de amor, coisa que muitos que estão unidos pelo laço de sangue, por vezes não sentem [amor]).

Mas para que é tudo isto? Qual a importância de afirmar Jesus como Homem e Deus verdadeiro? É simples! Se o Deus verdadeiro, que é Jesus, não morreu como Homem verdadeiro, que era Jesus, não há salvação! No Antigo Testamento, é expressamente revelado que é preciso a morte do cordeiro, para haver purificação dos pecados, dos que oferecem o animal ao sacrifício. Com Jesus, é o próprio Deus e Homem que se imola e sem Ele nunca poderíamos ser salvos da morte e do esquecimento eternos.

Foi esta questão central que suscitou o dogma da maternidade virginal de Maria. Foi um movimento evidente de lógica, de Tradição e fé, que conduziu os primeiros cristãos a tal crença e não as metodologias dos modernos sofistas, que mais parecem o padre Amaro, segundo Eça de Queiroz, diante a imagem de Maria, para descobrir se era virgem ou não.

Contudo, sublinho aqui um pormenor que, se calhar, lhe passou despercebido: “nós falaremos (da virgindade de Maria), pelo menos até ao nascimento de Jesus”, escrevi isso acima. Sim, depois do nascimento de Jesus, a Igreja continua a defender o semper vergine de Maria, e confesso que acredito com ternura e professo com admiração este dogma. Mas, como tudo na Igreja pode ser questionado e refletido, mesmo os dogmas, ao contrário do que defendiam alguns filósofos do passado, surge uma passagem do Evangelho segundo Mateus, capítulo 1, versículo 25 que diz o seguinte: “ E, sem que antes ele (José) a tivesse conhecido, ela deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Jesus”. Isto aconteceu depois de José ser avisado pelo anjo a não repudiar Maria, que concebera fora do seu noivado com ela. Note-se que este “conhecer” no casal bíblico é a relação matrimonial e sexual, é “uma compenetração pessoal: cada um se conhece a si mesmo no outro, gerando dessa forma a vida” (Diccionario de la Bíblia– Xabier Pikaza). Também é de notar que “o texto não considera o período posterior (ao nascimento de Jesus) e por si não afirma a virgindade perpétua de Maria, mas o resto do Evangelho, bem como a tradição da Igreja, a supõem” (uma das notas da Bíblia de Jerusalém).

Em suma, apesar da questão estar em volta de um pormenor que é a virgindade de Maria, na realidade, é mais urgente defender o essencial, ou seja, defender aquilo que Jesus é: verdadeiro Deus, que na sua misericórdia e no seu grande amor pela humanidade, quis se fazer verdadeiramente homem como nós. Tal como no Crime do padre Amaro dizia-se “temos Padre”, agora também poderemos dizer “temos Deus”.

 

António Machado Santos

5º Ano