O ano está repleto de ciclos que se vão repetindo quase por automatismo. Ano após ano, um após o outro, havendo apenas brecha para parcas alterações no decurso dos dias que se propõem.

Num Seminário não é diferente, novembro passa a ter o nome de uma semana que nos vai permitindo fazer uma bela descoberta de lugares e rostos que podem bem ser a nossa próxima casa. A Semana dos Seminários é uma experiência única durante o ano no Seminário, no decurso dos dias de quem se prepara para aquilo que todos os dias lhe é proposto.

Numa casa grande, tal qual como no Seminário, há muitos corredores, mas num destes muitos corredores que a atravessam há uma coletânea de cartazes emoldurados que vão sendo fixados na parede ano após ano e que nos vão guiando no percurso. É de um deles que vos quero falar. Em 1992 para a semana de oração pelas vocações foi criado um cartaz que tem no seu centro um imperativo que nos pode – não raras vezes- provocar-nos certo incómodo: “Deixai-vos seduzir pelo eterno”. Ora, o eterno ésempre diferente daquilo que imaginávamos há um tempo atrás, é como um horizonte que nos guia, capaz de nos levar ao espanto da descoberta e do sempre novo. Deixarmo-nos tocar pela eternidade não é coisa leve nos dias que nos são dados. E seduzir, esta palavra que nos envolve com pezinhos de lã, faz-nos sonhar com o que aí vem, com o sempre eterno. Seduzir é realmente sinónimo de ser cativado. Ficamos em alerta – como o Principezinho e a raposa – e o que esperamos sempre acaba por chegar.

Numa casa grande, como os raios da manhã projetados nas contínuas paredes, o tempo parece longo, mais longo quando esperamos nele e por ele. Se tornarmos o tempo numa festa laboriosa, encontramos a medida exata do encontro que procuramos. Queremos todos empreender a viagem a sonhar com este encontro, mas nem todos se permitem a ter a vontade de começar pela construção do navio.

Volto a Exupéry e explico-me: «Se quiseres construir um navio, não comeces por dizer aos operários para juntar madeira ou preparar as ferramentas; não comeces por distribuir tarefas ou por organizar a atividade. Em vez disso, detém-te a acordar neles o desejo do mar distante e sem fim. Quando estiver viva esta sede meter-se-ão ao trabalho para construir o navio.» A sede é o que nos põe em busca, talvez outro nome para dizer a sede seja simplesmente o eterno. Só o eterno pode nos fazer homens sem medo do que vem sempre sem nós merecermos ou sabermos.

O segredo talvez seja remar tendo o horizonte por objetivo. Mas se por algum motivo um dia um de nós desistir de remar, e o barco já for a nossa casa, lembremo-nos do que escreveu D. Hélder Câmara, que «É preciso salvar a qualquer preço a alma viajadora do nosso barco e a nossa alma de peregrinos…».

 

 

Nuno Sousa

6º Ano