«Fiz de mim o que não soube»

É talvez um inusitado e arriscado começo para tentar falar sobre vocação e natividade. Expostas estas duas premissas que nos parecem tão absortamente equidistantes por relação à citação roubada a Álvaro de Campos na Tabacaria de Pessoa, parece-me feliz, se partindo dela pudermos falar do humano exemplo de Maria perante tão sublime epifania, anúncio, que nos faz exaltar nesta época do ano.
A vocação seja talvez a capacidade de acolhermos na nossa totalidade aquilo não sabemos. Uma forma de recriação passiva, quanto ativa. Não é algo imposto ou que nos caia em cima como um fado. Seja talvez sugestão de uma fania que quer alterar o percurso quotidiano dos nossos dias, da nossa vida, como aconteceu com Maria de quem Jesus haveria de ser dado à luz do nosso olhar, da nossa fé, da nossa contemplação.
O Natal, como a vocação, é um recolher, uma coleta, um conjunto de pequenos nadas que se dão na normalidade dos dias passados. Um conjunto de poucos que vamos recoletando ao longo do traçado do nosso pequeno caminho de tentativas e erros, de impreparação e de hesitações. São os acidentes que nos fazem tão belos, que nos juntam das dogmáticas periferias e nos devolvem ao mais íntimo do grande Criador.
Somos o jardim com capacidade de urdir o fulgor do anúncio, do secreto e íntimo anúncio, qual tear a alvoroçar o mundo na sua capacidade re-criativa. Somos o jardim por onde o vento passeia. Onde, sem atendermos, tomamos as decisões da vida.
Um jardim é um desassossego semelhante ao do silêncio monástico. Uma disponibilidade e um partir para o mais além, para a cosmos, para a grande universalização do Bom e do Belo: um parto para o futuro.
Simples como isso: acreditamos que tal como Maria foi capaz, talvez também nós, mesmo se entre hesitações, noites e limitações próprias o consigamos fazer. Acreditamos que a nossa vida é mais do que um passar dos dias e que pode ser Deus quem nos salve, transfigure e nos dê uma vida capaz de ser tão bonita, capaz de nos fazer encontrar a paz interior. Se somos livres de aceitar ou não este querer divino a nosso respeito?
Sim, somos. Tudo há-de se cumprir na mesma. Suspeito que não da
mesma forma e foi isso que Maria entendeu bem naquele confronto
divino.
Sim, este Deus pode ser para nós!
Contemplemos uma obra de Urbano, artista Micaelense.
Rezemos com uma bonita oração de D. José Tolentino Mendonça.

Santo Natal!

Maria
Gosto de pensar que foi também a tua fraqueza a sustentar a tua força
que soubeste aceitar a travessia de tantas incertezas
colando o teu coração a uma confiança que não se via
E que por isso não te é estranha a minha turbulência confusa
a minha indecisão, os medos que me assaltam a certas horas
e que Tu abraças compreendendo tudo
Gosto de lembrar que difícil foi o teu caminho
cheio de estorvos mais duros do que aqueles que enfrento
batido por sombras, derivas e dores
E que o teu olhar se tornou um imenso regaço
onde posso entregar isto que me custa tanto
e que Tu abraças compreendendo tudo
Gosto de saber que achaste que os planos de Deus
te ultrapassavam infinitamente
e mais de uma vez te sentiste pequena, sozinha e incapaz
como tantas vezes me sinto
E também por isso no fundo experimento
que Tu me abraças compreendendo tudo.

N.B. A oração foi retirada do sítio online da Capela do Rato. A imagem relativa à obra do artista já citado,
foi retirada da rede social da Galeria Fonseca Macedo.